quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O FAIR PLAY NO JOGO DO PIÃO_História_3



Ainda hoje, conservo muitos dos meus brinquedos, que outrora me proporcionaram momentos de muita alegria e satisfação, apossando-se de mim, um não sei quê de nostalgia.

Eles contam as histórias, onde fui protagonista.

Desde uma caixa de cartão cheia de lego.

Um exército com todos os soldados e equipamento bélico.

Uma coleção de animais que mais parecia um jardim zoológico, tal é a quantidade e variedade de bicharada que saía na compra de uma determinada marca de detergente para lavar roupa a mão.

Junto a tudo isto, uma coleção de miniaturas de carros, os meus berlindes, o meu cubo mágico, um protótipo de uma locomotiva do início do século e o meu ioiô.

Mas de todas estas recordações, há efetivamente, uma muito especial, que se destaca e guardo com muito carinho, é o meu pião.

Ainda hoje, ocupa um lugar de privilégio nos objetos de decoração da minha casa.

Foi o meu companheiro de muitas horas de prazer, disfrutadas e partilhadas, com os meus amigos.

Sorrisos e tristezas.

Vitórias e derrotas.

Ele, ensinou-me a ver, que a vida é uma longa caminhada, calcorreando caminhos tortuosos, de paladar acre-doce.

Lembro-me dos despiques ao jogo do pião.

O Rafael, era um verdadeiro ás.

O Daniel, logo lhe seguia.

Reconheço, que eu nunca tive grande jeito, até ao dia que o Rafa, se dispôs a ser meu mestre no lançamento do pião.

Bom, aí subi muitos níveis e comecei a empenhar-me, e rapidamente atingi o patamar do Rafa e do Dani.

Depois, bom depois era só juntar uns trocos dos recados que fazia, para estar sempre na vanguarda dos modelos de piões que o Sr. António tinha para vender.

Tornei-me um bom cliente de piões, ponteiras e cordel a que chamávamos faniqueira.

Era o meu jogo preferido.

Grandes emoções, grandes despiques, chegávamos a fazer, campeonatos entre aldeias.

Eu, o Rafa e o Daniel, era-mos os ídolos e os mais fortes candidatos a vitória.

O mais difícil de se digerir, eram os jogos entre nós, já que se tornavam muito competitivos e intensos.

Como já sabia das dificuldades do Rafael, assumir as derrotas, tentava sempre não me expressar efusivamente, quando ganhava para não espicaçar a sua fúria.

A nossa aldeia detinha os expoentes do jogo do pião, com os mais novos, e o da malha com os mais velhos.

Era-mos, imbuídos de um espirito e raça ganhadora.

Nós, fazíamos de claque dos mais velhos, na malha e eles, retribuíam em relação aos nossos campeonatos do pião.

Recordo uma dessas competições, entre aldeias, de um rapaz que nós bem conhecíamos, de outros torneios e da escola, era inegavelmente um bom jogador, viu o Rafa, desferir um lançamento feroz e certeiro, que simplesmente, abriu o pião do Rui ao meio.

Foi um momento de gáudio que suscitou um grande aplauso, de todos que estavam a presenciar.

Era o consumar da nossa vitória, já que a equipa dele, não tinha mais nenhum pião de reserva, ficando com um jogador a menos.

Mas algo me chamou a atenção, fazendo desvanecer a minha alegria.

Quando olhei para o Rui, vi os olhos rasos de lágrimas.

Todos riam dele.

Tive uma atitude, que deixou todos da minha equipa incrédulos, e revoltados.

Meti a mão ao bolço e tirei o meu pião suplente.

Toma Rui, vamos continuar o jogo.

O Rafael soltou o desabafo.

 

Diogo? O que estás a fazer?

Deves estar a brincar connosco, só pode.

 

Senti que tinha todos contra mim, até o meu Irmão Rodrigo, estava a ser-lhe difícil digerir aquele meu gesto.

Só o André, me apoiou.

O rui, agradeceu-me e lá continuamos o jogo.

Foi uma verdadeira hecatombe.

O Rui, rapidamente imergiu, e logo se tornou num sério candidato a vitória.

Foi então que o Rafa, indignado repetia.

 

Andamos uns a jogar para os outros!

Assim não dá!

Já podia ter isto ganho.

 

Mais adverso se tornou o ambiente para o meu lado, já que o Rui ganhou.

O Daniel, insurgia-se contra mim, dizendo.

 

Parabéns Diogo, foste um herói.

Perdemos por tua culpa.

 

O André tomou a minha defesa bem como o Rodrigo.

 

Vamos ver uma coisa, eu até poço ter alguma dificuldade em entender o que o Diogo fez.

Mas daí culpá-lo da derrota e expressar dessa forma o que estamos a sentir, é injusto.

 

Eu estava consciente do meu ato.

Magoava-me mais, era a frieza e a incompreensão, da parte de alguns dos meus amigos.

O Rui, entregou-me o pião e agradeceu-me, dizendo.

 

O que vocês estão a fazer ao Diogo é muito mau.

Nem sei que raio de amigos vocês são.

Ao júri, quero desde já dizer, que esta minha vitória, é para atribuir ao Diogo.

Não é que a equipa dele mereça, pela atitude que tomou.

Mas pelo gesto, que teve para comigo, já que a minha continuidade em jogo deveu-se graças à boa vontade, ao emprestar-me o pião suplente dele.

Quero que esta vitória seja toda do Diogo.

Fico tão feliz como se fosse minha.

Mais uma vez deste uma grande lição a todos nós.

 

Demos um abraço fraterno, carregado de emoção.

 

Se queres mesmo saber Diogo, esta atitude vinda de ti, não me surpreende, já que pautas a tua conduta, por uma postura irrepreensível.

Pensei, que a tua equipa, formada pelos teus amigos, te conhecessem melhor.

Terão que rever, o verdadeiro significado de amizade.

 

Mantive-me em silêncio, deixei que o Rui, desabafasse, a sua revolta, perante a injustiça que presenciava.

Ele, era um dos meus bons amigos.

Ali no jogo, pertencentes a aldeias diferentes, era-mos adversários.

Mas para mim, imperava sempre o lado humano.

Eu sei que o Rafael, tinha feito uma grande jogada, mas as lagrimas do Rui, iriam para sempre manchar a nossa vitória.

Obrigado Rui, fiz tudo isto porque quis, e em circunstância alguma estava a espera desta tua atitude.

Mas obrigado, soubeste retribuir da maneira mais nobre.

 

Não podia ser de outra forma Diogo.

 

Ficamos isolados dos nossos grupos.

Já que a equipa do Rui acabou por não gostar que ele me atribuísse a sua vitória.

Mas acima de tudo ficamos de consciência tranquila, e aprendemos e demos, mais uma boa e bonita lição.

Obrigado Rui.

 

Eu é que te agradeço Diogo, por seres meu amigo e por seres assim.

 

De regresso a casa, o ambiente estava gelado.

O grupo estava dividido.

O Rafael e o Daniel, caminhavam mais a frente e o silêncio era ensurdecedor.

Eu vi que o Rafa e o Dani, foram aos poucos retraindo o paço para que nós os pudéssemos alcançar.

Agora, já todos juntos e chegados ao largo da aldeia, ponto para cada um seguir para sua casa, lá nos despedimos.

Eu carregava um semblante de desilusão.

Sentia-me magoado com a postura do Rafa e do Dani.

Chau, fiquem bem até amanhã.

Só vos quero comunicar uma coisa, no caminho tomei uma decisão.

Não contem mais comigo para qualquer tipo de jogos.

Para mim acabou hoje.

Quanto a nossa amizade, Rafael e Daniel, é algo que ainda vou refletir.

A vossa atitude, deixou-me bastante desapontado, e apreensivo.

Mais uma coisa, aprendam o significado de fair play, vai vos ser muito útil pela vida fora, e engrandece-nos.

Eu sou assim.

Desta forma vou pautar a minha vida.

Quem quiser ser meu amigo de verdade, terá que me aceitar tal como sou.
Egoísmo não!

 

Diogo, tem calma, escuta uma coisa.

Achas que se tivesse sido o Rui, a rachar o pião de algum de nós, tinha tomado a mesma atitude?

 

Não, claro que não Rafael.

Mas sabes porquê?

Ele não tem mais nenhum pião.

Rafael, as atitudes ficam com quem as pratica.

O Rui, soube estar, e portar-se à altura de um campeão.

Comigo não contem mais.

Competir e ganhar sim, mas repito, com fair play!

 


Diogo_Mar

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

UMA TARDE NO RIO_HISTÓRIA_2



Preguiço na cama do tempo, como se ele fosse o relógio,

Onde os anos são horas,

Os meses os minutos,

Os dias segundos.

Percorro esse longo e íngreme caminho que me trouxe até aqui.

Vasculho na minha memória passagens que fizeram o meu livro de vida, que vou partilhando no meu blog, em forma de prosa, ou de poesia.

Vai daí, e já estou pronto para vos transmitir mais uma peripécia da minha adolescência, essa idade onde quase tudo nos é permitido fazer.

Só ainda não encontrei a definição correta, já que fico dividido entre:

Puberdade, ou pobre idade lol!

Seja lá como for, é o patamar mais aparvalhado, mas o mais belo da nossa existência.

 

Foi numa tarde, sob um sol escaldante, que castigava o alto Douro, como de resto é normal no pico do verão, que fomos até ao rio.

Era sempre assim, quando a temperatura, nos convidava a uns bons mergulhos, Naquele belo espelho de água, que banha aquela região.

Nós não nos fazíamos rogados.

O rio Douro, é o nosso ex-líbris da paisagem, parece que joga ao esconde esconde, por entre vales e montanhas, assim, como chama a si, a responsabilidade, por aquele microclima que disfrutamos naquelas paragens.

Ténis, calções, t-shirt e boné montados nas nossas bikes aí estávamos nós prontos para uma tarde de grandes emoções.

Eramos seguidos de perto pelo Dique, o meu Cão, que estava eufórico porque já sabia onde íamos, pela direção que estávamos a tomar.

Tenho que reconhecer, que vestir um fato de pelo, em dias de calor não devia ser nada agradável.

Por isso, toda a sua alegria desconcertante e trapalhona.

Tínhamos que o reprender por vezes, já que se atravessava por entre as bicicletas, atentando a nossa integridade física.

 

Vá, Dique, calma!

 

Repreendeu o André.

O caminho foi-se estreitando, seguíamos em fila indiana, o cão tomou a dianteira do pelotão.

Quanto mais nos aproximávamos, mais ele corria, língua de fora arfava com intensidade, agitando a cauda.

Íamos em roda livre, aproveitando a inclinação do traçado, que serpenteava os vinhedos.

As nossas narinas eram inundadas pelo perfume do mosto, sinal de uvas boas e maduras.

Eis chegados.

Encostamos as bicicletas, tiramos os ténis, as t-shirts e os bonés, e lá vai disto.

O Dique já estava todo encharcado.

Ladrava, expressando toda a sua alegria, parecia dizer que a temperatura da água, estava boa.

Claro está, provocando-nos para as brincadeiras que sempre fazemos com ele.

O Daniel e o André, foram os primeiros a lançarem-se a água, imediatamente seguidos por mim, o Rodrigo e o Rafael.

Sabíamos, dos cuidados que tínhamos de tomar, já que 3 anos antes, um rapaz de uma aldeia vizinha, tinha morrido afogado num local mais acima.

Daí a nossa atenção.

Embora, todos nadássemos bem, mas de heróis está o cemitério cheio.

Entre braçadas piruetas e brincadeiras com o Dique, a quem lançávamos um pau, e logo ele se atirava a água para o ir buscar.

Levamos uma bola, para darmos uns toques.

Estavam reunidos todos os requisitos para uma fantástica tarde de verão.

Não demorou, que mais gente chegasse.

O rio, era um ponto de encontro de diferentes gerações, nos dias quentes.

Não tínhamos que nos preocupar com os nossos haveres, já que dessa tarefa o Dique se encarregava.

Ninguém estranho ao nosso grupo, ousava aproximar-se do sítio onde estavam Os nossos pertences.

Tomava conta de tudo e até de nós.

Quando eu, ou o Rodrigo nos afastávamos mais da margem, ele ficava nervoso, ladrava freneticamente, como se nos estivesse a repreender.

 

Diogo, e Rodrigo, não nadem para longe, o cão não se cala!

 

Pedia o Rafa.

Nós era-mos profundos conhecedores daquele local, mas não fosse o Diabo tecê-las.

Regressamos ao perímetro em que o Dique nos consentia estar.

 

Vá, tem calma já cá estamos meu lindo.

 

Disse-lhe o Rodrigo.

Cobria-nos de lambidelas de satisfação, por nos ter de volta.

 

Diogo, ao teu cão, só lhe falta falar!

 

Diziam os outros rapazes, que foram chegando.

Fizemos um joguinho de futebol, e rematamos com mais um bom e reconfortante mergulho.

Amarramos as t-shirts aos guiadores das bikes e começamos a pedalar para casa, disfrutando daquela frondosa paisagem em anfiteatro que a natureza nos oferecia.

Fizemos uma paragem junto de um pessegueiro onde comíamos os mais saborosos e suculentos pêssegos.

Ao longo do percurso, fomos colhendo algumas amoras e uvas, das quais eramos apreciadores.

O que na ida para o rio era fácil, já que íamos quase em roda livre, agora tínhamos que pedalar com afinco.

Em alguns pontos, o caminho tornava-se bastante sinuoso.

 

Já dava outro mergulho Diogo!

 

Dizia o Rafa.

 

Até eu, retorquiu o Daniel.

 

Mesmo em tronco nu, o calor castigava.

Quando chegarmos a minha casa ligo a mangueira sugeri eu.

 

Diogo, tenho melhor ideia.

 

Qual André?

 

O meu Avô, tem o tanque cheio, para regar mais logo, por isso podemos lá ir dar um mergulho.

 

Boa, isso mesmo.

Bora lá, só vou a casa, deixar o Dique, e vou lá ter convosco.

Abri o portão fronteiriço, para o meu cão entrar.

Ele estava sequioso, e cansado.

Fiz-lhe uma festa, e segui viagem para casa do Avô do André, o Sr. Fonseca, um senhor muito simpático, de quem todos nós gostávamos.

 

Então rapazes, não chegou o banho no rio?

 

Quando se chega aqui acima, já temos de tomar outro banho.

Respondeu-lhe o André.

 

Temos por arte mágica, inverter a posição do caminho!

 

Gracejou o Rodrigo.

 

Pois, para baixo todos os santos ajudam, o pior é na vinda.

Mas vocês são novos e valentes!

Vá divirtam-se.

 

Obrigado Sr. Fonseca.

 

De nada Diogo.

 

Se quiserem comer, tu André, conheces os cantos a casa, e a tua Avó prepara-vos um merendeiro.

 

Ok, Avô, obrigado.

 

Não viemos para aqui, para dar trabalho, disse-lhe eu.

 

Ora essa, Diogo mas que trabalho que carapuça.

Gosto de vocês, e são amigos do meu neto.

Em minha casa, os amigos são sempre bem-vindos e bem recebidos!

 

Esta é a bandeira, que define as gentes Alto-durienses, serem amigas do amigo, e hospitaleiras.

 

Até logo rapazes.

 

Obrigado, e até logo, dissemos nós em uníssono.

E agora, 1 2 3!

Mergulhooo!!!

 


DIOGO_MAR

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

FRAGA ALTAR DA MINHA ALDEIA



Fraga encarquilhada pelo tempo, que se perde na história

Fraga gélida imponente e com memória.

 

A erosão a que o vento te castiga

Fazem um enlace ao traçado da minha vida.

 

Essa tua imponência, rugas e frieza

Dão contornos únicos a tua beleza.

 

Deitado no teu colo, oiço as histórias que tens para mim

Fecho os olhos, viajo no tempo

Folheio o livro do sem fim!

 

Acariciava as tuas rugas, e as gretas expostas ao tempo

No meu ouvido ecoava a tua voz, chorava de tristeza dor e de sofrimento.

 

Fraga gigante confidente do universo

Brotas palavras tão belas que não cabem neste verso.

 

As feridas rasgadas pelo vento agreste, desventrando o teu corpo

Numa luta titânica contra o tempo, trespassaram-te deixando morto.

 

Fraga altiva e serena, guardiã de histórias que se perdem no tempo

Sussurras-me ao ouvido a melodia do sentimento.

 

Gosto de te contemplar, lá no alto da serra, como se fosses o adamastor

A herança que em ti encerras, é o testemunho do meu amor.

 

 Amor que simbolizas, nesse corpo rude, escarpado e sofrido

És a bela de uma história onde fico adormecido.

 

Fraga da minha aldeia, marco geodésico altar para o mundo

Carregas aos ombros, séculos de lendas e mitos onde me perco feito vagabundo!

 

Património de Deus ou do homem, um testamento inacabado

Doaste-me um pedaço de ti, que ainda hoje guardo.

 

A tua voz, num murmúrio trémulo de saudade

Agastada pelos longos anos sem idade.

 

Viste o meu primeiro beijo, aquele que roubei

Fraga amiga, não contes a ninguém, eu também não contarei!

 

Um beijo de inocência da minha tenra infância

Dos verdes anos da minha adolescência.

 

Ainda hoje lá moras, adormecida dentro da tua altivez

Fraga da minha história

Acorda!

Diz comigo

Era uma vez?

 

 

DIOGO_MAR

domingo, 20 de julho de 2014

UMA MOCHILA CHAMADA FELICIDADE_HISTÓRIA_1





PARA O DIA DA AMIZADE


Corpo franzino, pele bastante clara, olhos de um azul vivo, cabelo cor avelã.

É o retrato físico do personagem desta História.

Uma criança, de carater e personalidade vincada, determinado nas suas tomadas de decisão.

De espirito solidário, dava aos outros, o que para si precisava.

Um verdadeiro altruísta.

Mas o Rodrigo, ostentava uma grande revolta pelo degradante ambiente familiar, com o qual coabitava.

Uma família desarticulada, com graves problemas de alcoolismo.

Na escola, transbordava toda a sua raiva de uma vida vestida de madrasta.

Era considerado um aluno altamente problemático, e conflituoso.

São os rótulos fáceis de aplicar em avaliações e julgamentos feitos em gabinete, ignorando a verdadeira origem do problema.

Ele tentava fintar a amargura, que lhe corroía a alma, com um sorriso terno e doce, que irradiava do seu rosto, onde 3 sardas se evidenciavam.

Criança, irreverente e traquina, eram atributos perfeitamente normais para a sua tenra idade.

Estava pelos 7 anos, um curto caminho, mas repleto de sofrimento.

O fator proximidade, fazia de mim, uma testemunha da sua execrável realidade familiar.

Dessa forma, eu era das poucas pessoas, por quem ele nutria simpatia e confiança, laços que o tempo transformou em amizade.

Era na minha casa, que muitas vezes lhe saciava a fome, e lhe dispensava a atenção e o respeito, a que uma criança tem direito.

Foi num fim de tarde pardacento, do mês de novembro, que sentados nos degraus da escada de acesso ao alpendre de minha casa, desfiamos esta conversa.

 O Rodrigo, implorava, através de um olhar triste e distante, que lhe dessem a oportunidade de ser feliz.

De sentir o calor de um carinho, e que acreditassem nele.

Recordo algumas questões que me colocava.

 

O que é preciso fazer para ser feliz?

Os pobres também podem ser felizes?

A que idade chega a felicidade?

 

Estava espelhada a vontade sôfrega, de encontrar algo que lhe parecia inatingível, e que os seus 7 anos de idade estavam famintos.

A felicidade.

O azul dos seus olhos, tornava-se ainda mais explícito.

Fitando-me, perguntou.

 

Estou-te a aborrecer com as minhas perguntas, não é?

 

Não, claro que não Rodrigo.

Eu não podia ser mais um, a defraudá-lo, nas suas espectativas.

A felicidade, é como uma semente, que lançamos à terra, para germinar, crescer, e colher o fruto.

 

Então a nossa amizade também é uma dessas sementes?

 

Sim, claro que sim.

 

Então é por isso que quando estou junto de ti, me sinto feliz?

 

Sim, é exatamente isso.

A felicidade tens que ser tu a construi-la, e a procura-la nas coisas boas que a vida nos oferece.

 

Pois, mas eu sou mau!

Na escola até já me disseram que devo ser filho do diabo.

 

Rodrigo, todas as pessoas nascem boas.

Repara naquele imponente sobreiro!

Do seu majestoso tronco nascem vários ramos, que se multiplicam.

 

Sim e?

 

Imagina que é a estrada principal da vida.

Depois temos os atalhos, cabe-nos saber tomar a direção certa.

 

É por isso que as pessoas dizem, quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos?

 

Nem mais, é isso mesmo.

Devemos optar sempre pelo caminho da verdade, justiça, e humildade.

 

Ajudas-me a encontrá-lo?

 

Sim, é o meu dever, como teu amigo que sou.

O tempo foi passando, e o Rodrigo procurava em mim o alicerce que familiarmente não tinha.

Lembro um desabafo que de forma espontânea fez.

 

Tu é que podias ser o meu Pai!

Nós devia-nos poder escolher os nossos Pais.

Mas não pode ser pois não?

 

Não Rodrigo.

Mas podemos fazer bons amigos, que nos podem ajudar a enfrentar os problemas e desafios que a vida nos impõe.

 

Como um jogo de futebol, que umas vezes ganhamos, outras perdemos?

 

Exatamente.

Sabes Rodrigo, é tão glorioso saber ganhar, como é ainda mais saber perder.

Um verdadeiro campeão vê-se na derrota.

 

Mas então para sermos felizes, temos que sofrer?

 

Inevitavelmente sim.

Mas acredita, que o sabor da vitória quando chega sobre algo de muito difícil, dá-nos mais força, mais alento para o futuro.

 

Olha, sabes uma coisa?

 

Diz.

 

Eu vou fazer 8 anos na próxima quinta-feira.

 

Achas que eu me ia esquecer disso?

Claro que não Rodrigo.

Que presente gostavas de receber?

 

Uma mochila carregada de felicidade.

 

Ok, vamos ver o que se arranja.

 

No outro dia que fui a vila, vi uma muito fixe, era da nike.

Mas o meu Pai disse-me que se eu lhe falasse em comprar um garrafão de vinho, é que falava bem, ameaçando-me com um estalo.

Eu quero crescer rapidamente para sair de casa, levo a minha mãe comigo.

Se não fosse a tua amizade, já nem sei o que tinha feito.

 

Havia dias em que o Rodrigo, recorria a mim, para jantar e até mesmo dormir, fugindo do quadro de terror que vivia em casa.

Para dormir mais aconchegado, enrolava uma mantinha, que colocava sobre a cama ao seu lado.

Habituou-se de tal forma a este ritual, que ainda hoje o preserva.

 

Sabes, por vezes vou até ao rio, e choro sozinho, por não ser igual aos outros meninos da minha escola.

Eles gozam-me pelas tristes figuras que o meu Pai faz quando está bêbado.

Vamos ter uma festa de natal, eu vou participar, numa peça de teatro, mas já sei que não vou ter os meus Pais a ver-me.

 

Eu estarei presente Rodrigo.

 

Tu vais?

 

Claro que sim, ia lá eu perder uma peça de teatro onde o meu amigo vai participar.

Estarei lá, e na fila da frente.

Vi lágrimas nos seus olhitos, desgastados pelo sofrimento.

 

Poço d’arte um abraço forte?

 

Então porque não o havias de poder fazer!

 

Gostava de combinar contigo um segredo, mas tenho medo que fiques zangado.

 

Diz lá.

 

Quando estiver contigo poço chamar-te de Pai?

 

Se isso contribuir para a tua felicidade, claro que podes.

Eu irei continuar a ter a mesma postura que tenho tido até aqui.

Ser teu amigo.

Levantou-se num ápice olhou-me nos olhos abriu os braços como se fosse abraçar o mundo, e selou ali a nossa já grande mas agora reforçada amizade.

Porque entre mim e ele, agora eramos Pai e Filho.

No dia do seu aniversário, presenteei-o com a tão sonhada e desejada mochila.

Foi dos momentos mais emocionantes que vivi.

Aquela criança, a completar 8 anos, abraçou-me de maneira tão efusiva, agradecendo-me, tudo isto alagado num mar de lágrimas de felicidade, ao qual eu não consegui ficar indiferente.

Depois, de digerir-mos aquele momento, arranquei-lhe um sorriso supra encantador, quando lhe disse.

Rodrigo, afinal já tens a mochila, que tanto querias, e ela veio cheia de felicidade, como tinhas pedido!

Ainda com a voz trémula respondeu.

 

Obrigado Pai, por realizares este meu sonho.

Afinal ela existe!

Tudo vou fazer, para te retribuir, tornando-me um bom menino, e bom aluno.

Acreditas em mim, não acreditas?

 

Sim, és o meu campeão!

 

Vais-te orgulhar muito de mim.

 

Assim é que se fala!

Como vez, a vida não é feita só de tristezas!

Quero-te agradecer este dia Rodrigo, já que a tua felicidade é recíproca.

Ofereceste-me um dia que guardarei para sempre no álbum da minha memória.

Afinal é tão fácil e simples fazer uma criança feliz!

OBRIGADO RODRIGO.

 

ADORO-TE PAI!

 

 

 

DIOGO_MAR

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A MINHA SOPA DE LETRAS



Confesso, que ao contrário de muitas crianças, eu sempre gostei de sopa.
Os meus Pais, sempre me incutiram a importância que ela representa para a nossa alimentação.
Daí, nunca ter mostrado qualquer relutância.
Desde a sopa confecionada pela minha Avó, até a da minha Mãe, adquiri esse bom hábito alimentar.
Passada, ou por passar, eu é que nunca passava sem uma boa sopa.
Mas havia, uma que particularmente me chamava a atenção.
A sopa de letras.
Isto porque tentava retê-las no fundo do prato, para no fim ver que palavras conseguia obter.
Aquele momento envolto numa perfeita incógnita aguçava-me a curiosidade, e porque não dizer o apetite.
Qual seria o desfeche?
Sugeria à minha Mãe, que me servisse a sopa no fim, para que dessa forma não ficassem à espera do acasalamento das letras, para construir as palavras que elas me proporcionassem.
Na minha família já todos conheciam a paixão que eu nutria pela sopa de letras.
Ela foi rebatizada, com o cognome, sopa do Diogo!
Os meus Pais dizem que a primeira palavra que construí, foi o meu nome.
Por várias vezes tentei escrever o nome dos meus Pais, mas com trinta diabos, faltava-me sempre a letra R!
Porque haviam eles de ter em comum o R no nome!
Será que que no empacotamento não introduziam de forma igualitária todas as letras?
Eu já não tinha idade para dizer, Pedo e Cataina!
Imaginem como ficaria a lengalenga, do ato que oeu a olha da gaafa do ei da ússia!
Ainda hoje riu, ao comer sopa de letras.
Traz-me a memória esses tempos idos, de uma imaginação entregue as sortes de um prato de sopa.
Recordo um episódio, que fez o meu Pai soltar uma sonora gargalhada.
Eu naquele dia tinha conseguido escrever, o benfica e campiao!
Claro está que lhe faltavam os acentos.
Ele que era Portista, em tom provocatório apressou-se a juntar as letras, e responder-me.
Isso e so de vez enquando!
Claro está que eu rapidamente comi uma boa colher de letras para o não deixar escrever mais.
Diogo, grande batoteiro!
Muitas vezes o meu Pai, ficava a ajudar-me a catar as letras, para simplificar o desafio a minha paciência.
Enquanto isso, a minha Mãe, arrumava a cozinha, e gracejava dizendo:
Olha que dois!
Ela já conhecia a grande paixão que eu e o meu Pai sempre evidenciamos por jogos de paciência.
Não era por acaso que tinha o meu quarto quase todo forrado de puzzles, onde eu investia uma boa parte do meu tempo libre.
Olhando agora para traz, até que encontro um paralelismo entre a sopa de letras  e o puzzle
Ambos aguçavam a arte e engenho, para algo que temos de procurar de forma incessante na sopa da vida, onde nos vão sempre faltar letras!



DIOGO_MAR

quinta-feira, 26 de junho de 2014

O AVESSO DO MUNDO




A Pátria que me pariu

Terra de esperança

Sorriso espontâneo no rosto de uma criança.

 

Criança que abraçava o universo

Inocência e verdade, que ocultavam o lado perverso.

 

Espelho de um mundo injusto, construído pelo meu semelhante

Acorda e abandona, esse caminho errante.

 

Desigualdade injustiça é essa a tua lei

Esmagas a plebe, em nome do rei.

 

Ó déspota que vives obcecado pelos bens materiais

Adulteraste e esqueceste os teus princípios ancestrais.

 

Pobre homem de ambição desenfreada

Sonhaste com uma mão cheia de tudo

Sobra-te uma mão cheia de nada!

 

Foi este o caminho que traçaste para o teu destino

Agora já só ecoam as vozes do mais triste hino.

 

Ó aldeia global

Alimentas o esclavagismo social

Rolam lágrimas de fome, miséria e descrença neste meu Portugal!

 

 

DIOGO_MAR

domingo, 22 de junho de 2014

ALBUFEIRA DA MINHA ALMA









Recordo, aquela inesquecível noite cálida, em pleno mês de agosto,
Vivendo e consumindo até as mais profundas entranhas da minha alma, o fervor escaldante e contagiante daquelas noites de Albufeira Velha. Depois de um belo e reconfortante jantar, na companhia, de alguém que por certo ade deixar incontornavelmente, a sua marca na minha vida. Ó quanta saudade! Caminhamos até as barraquinhas de artesanato, representativo de várias culturas que por ali se cruzam. Entre pechisbeque, e peças requintadas, Lá fomos calcorreando as ruelas, deixando que a noite, fosse tomando conta de nós, sem que déssemos por isso. A sua cadência era profundamente gratificante. Estávamos em férias. E férias, são férias, na companhia de alguém que amava. Eu só pedia para o tempo correr o mais devagar possível. Gostava de poder parar o relógio! Ser dono da máquina do tempo! No decorrer do jantar foi notório que algo pairava. As palavras entrecortadas por momentos de silêncio, cheios de mensagens que nós bem descodificávamos. Ríamos e trocávamos olhares, com uma cumplicidade muito forte, sedenta de um beijo que tardava. Continuamos a nossa peregrinação pela feira, vendo os mais variados artigos que nas bancas e expositores havia. Sentia que a nossa cede de amor era cada vez mais intensa e mais sequiosa. Estava escrito nos nossos olhares, No caminhar envoltos naquele abraço. Era a química do amor. Bom, eu que até era renitente quanto a essa frase feita, de química do amor e ao tão falado clique. Eu estava a senti-lo. Queria dar forma, e perder-me pelos frondosos caminhos dessa emoção. Sim, não restavam duvidas era o amor! Sob aquele céu salpicado de estrelas, e tantas luzes psicadélicas, dos bares que enchiam a pequena Albufeira velha, já nada fazia o nosso amor ser discreto. De repente, os meus ouvidos foram assaltados por uma sonoridade que bem conhecia. Os acordes da minha banda preferida, os Pink Floyd. Eu estava rendido a minha paixão, e a minha banda de sempre. Sentámo-nos na esplanada do bar, que nos ia oferecendo o som daquele rock no qual nos revíamos, era uma noite perfeita. Sentíamos que Aquela brisa suave e cálida com um marcante cheiro a maresia, nos havia de precipitar nos braços um do outro. Afinal estava ali a meia dúzia de paços a praia dos pescadores, palco e senário, de tantas histórias de amor. E porque não ser também do nosso? Íamos bebendo o copo, e entre os golos trauteava-mos as músicas. Aquilo não era mais que um breve compasso de espera, para finalmente libertar tudo que no fundo estávamos a sentir, e os nossos corpos a implorar. O apelo ao amor. Entrelaçamos os dedos das nossas mãos húmidas de ansiedade. Eis que surge o primeiro de muitos beijos profundos e carregados de tão nobre sentimento. A sua boca era como uma fonte onde eu estava a saciar a minha sede sôfrega. Deixamos que a emoção nos devorasse. Já nem nos preocupava os olhares, que por ventura recaíssem sobre nós. O mundo era nosso! Eu já só ouvia a música muito ao longe, naquele momento eram os acordes do amor que imperavam. Segredei-lhe a palavra que me assaltou, e que melhor definia aquele momento. Amo-te! A resposta foi imediata.

 
Eu também te amo muito!


E acrescentou, com uma voz firme, mas doce.


 
Vamos caminhar?


 
Não me fiz rogado na resposta.
Sim claro que sim!


 
Ansiedade era recíproca, estávamos sedentos do momento de desnudar os nossos corpos.
Fomos caminhando, ou flutuando, pela praça cheia de gente, com tantas histórias iguais a nossa, que por certo se haviam de cumprir, ao longo da magia das noites de Albufeira velha.
Ficaram para traz os sons, as luzes e o paralelo e bípede que definem a traça daquela vila, e ruelas com tanta história.
Nós também íamos fazer a nossa!
Entramos no pequeno túnel, de acesso ao senário que escolhemos, para o momento tão nosso, tão puro e verdadeiro.
Ali estava a praia dos Pescadores.
Fomos deixando as nossas pegadas marcadas na areia, e para traz o rebuliço de uma vila, cheia de múltiplos sons luz e cor.
Tínhamos na plateia o mar, as estrelas e a indiscreta lua.
Mas não eram presença que nos incomodasse, já que guardam segredo de tudo que veem.
Por certo ficariam felizes por apadrinhar tal momento.
Ficamos imóveis durante alguns instantes, perante o mar, calmo e doce.
Até ele parecia, ter-se associado aquele enlace.
Eu que sempre fui, e sou um apaixonado pelo mar, tinha ali o senário mais que prefeito.
Agora a melodia que ecoava nos nossos ouvidos, era a voz do mar.
O embalo da sua música, veio trazer-nos o som mais fascinante para completar o quadro que estávamos a viver.
Envolvemo-nos num forte e fervoroso abraço, carimbado por um beijo tão imenso como aquele espelho de água.
Deixamo-nos desfalecer naquela areia fina e aveludada.
Ela ia ser o leito do nosso amor.
As mãos passeavam-se pelos nossos corpos.
Num ápice, a pouca roupa deixou de ser barreira a vontade que tínhamos de colar a nossa pele.
Mergulhamos na força cósmica do amor.
Eu tinha passaporte para penetrar o seu corpo, que me implorava esse momento.
Eis que o ato se consumou.
Agora já só se ouvia a nossa respiração sôfrega, por mais! E ainda mais!
A lua beijava os nossos rostos.
A doce e leve brisa, afagava os nossos corpos, como se os estivesse a abençoar.
O mar cantava um hino ao nosso amor.
Ali não há vencedor, nem vencido.
O dicionário, tem poucas palavras e adjetivos, para retratar o que estávamos a sentir, e a viver.
Os nossos braços, prensavam os nossos corpos, como se tivéssemos medo que alguém nos raptasse, pondo cobro aquele momento que não queria-mos que tivesse fim.
Estávamos a escrever uma página, que por certo ficará gravada no livro das nossas vidas.
O clímax chegou, e com ele os sorrisos espontâneos que retratavam a plena felicidade daquele momento.
Ríamos como se de duas crianças se tratassem a quem se presenteia com o maior e melhor chocolate do mundo.
Deixamos na areia, o molde dos nossos corpos, e do nosso amor.
Certos que rubricamos, mais uma das muitas histórias que ficam escritas, no livro do tempo de Albufeira, e da praia dos pescadores.
Ó noite mágica!
Ó sul onde perco o meu norte!
Mas onde sou mais eu.
Ó Albufeira de tantas estravagâncias, de tantos amores, e desamores.
Mas que também és minha!!!


DIOGO MAR