quinta-feira, 16 de outubro de 2014

À SOLEIRA DO TEMPO_História_5



Guardo bem presentes, os dias que passava em casa da minha Avó.

Um palco, recheado de histórias de uma vida, da qual eu era um herdeiro direto.

Debruçada sobre a aldeia, gozava de uma paisagem sublime.

Gostava de ao acordar, acercar-me da janela, abrir as portadas de madeira, preguiçar e soltar o bocejo matinal, esfregar os olhos ofuscados pelo sol, e contemplar todo aquele quadro de uma blesa inigualável.

A aldeia parecia carregar-me aos ombros.

Via todo o casario, e o caminho em terra batida que o serpenteava.

Lá ia o carro de bois,  com o seu imponente jugo, era audível o som característico que imitia.

Guiado por um homem, de rosto castigado pelo tempo, vestia uma samarra, levando na cabeça um chapéu de palha, com largas abas, munido do aguilhão que usava para reprender o gado.

O vento trazia até mim, a sua voz de comando para os animais.

Mais ao fundo o campanário, com o relógio que de quinze, em quinze minutos quebrava o silêncio daquelas paragens, com um som roufenho.

A perder de vista o rio, onde estava a velha barcaça de transportar os animais para a outra margem.

O fumo libertado pelas chaminés, fazia um bailado com o vento, seria ele o seu par?

As minhas narinas eram inundadas pelo cheiro a café e a torradas.

Mas o maior encanto era o perfume que a lenha libertava.

Bom, o próximo passo, era fazer a oração, ao anjo da guarda, esculpido na madeira da caixa de música, onde tinha um cordel que puxava para escutar a melodia que embalava o meu sono, e me projetava até as estrelas.

Ela estava sobre a cabeceira da minha cama de ferro trabalhado, onde me joelhava de mãos unidas dizendo:

(meu menino Jesus, dá-me a tua mão, que eu sou pequenino, poço cair ao chão)

(Anjo da guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia).

Pós este ritual bi diário, que a minha Avó me havia ensinado, afagava com um olhar, os móveis em castanho, com tampos em mármore.

Ao centro da cómuda,estava pousada uma imagem de nossa senhora de Fátima, e o retrato do meu Avô.

A um dos cantos, um lavatório em esmalte, agora tornado adorno.

Uma bacia, que encaixava numa estrutura de ferro, sob ela estava um jarro e um balde.

A minha Avó, cuidava do meu quarto, com o amor e carinho, que fazia questão de me presentear.

Assolhava as roupas da minha cama, deixando-as com um cheirinho a sol, eliminando dessa forma os vestígios do odor a naftalina.

Nunca esquecendo de colocar a minha mantinha dobrada em quatro, pousada na minha travesseira bordada pelas suas mãos cheias de mundo.

Do mobiliário, aos adornos, tudo transpirava capítulos de um álbum do tempo, que agora pareciam estar expostos numa galeria de arte antiga.

O cheiro a cera, que imanava o soalho dava um toque de frescura, a uma casa onde eu me sentia feliz.

O tique taque do relógio de parede, marcava a cadência de uma espiral de momentos calibrados pela poeira dos anos.

O fio do tempo, era como se fosse uma teia tricotada, por sacrifícios, bordados de lágrimas suor e sorrisos, a que as suas rugas, e o seu xaile davam uma textura imensamente doce.

Ali os anos estavam encaixilhados num quadro de memórias, aos quais, o tempo e o relógio eram indiferentes.

Ao canto da sala, morava um cadeirão de madeira imponente, todo torneado e lavrado, que me dizia, que estavam ali guardadas leituras de obras ancestrais, de páginas já amareladas, e com cheiro a papel velho que os anos castigaram.

Era onde o meu Avô, gostava de repousar o corpo e os olhos, sobre uma vida que a velha estante encerrava.

Agora que ele tinha partido, levando com ele uma larga cota da alegria da minha Avó.

Ela, gostava de me olhar sentado no velho cadeirão, eu reparava, que no seu olhar bem explícito, cintilava, um misto de nostalgia e de orgulho, por eu estar ali.

Certamente, lhe trazia a lembrança o meu Avô.

Eu carregava aos ombros, tão pesada, mas tão enriquecedora herança.

Ao centro, uma longa mesa, que se enche pelo natal, com uma toalha toda feita em renda, pelas mãos mágicas e noites mal dormidas, daquela mulher de beleza única, um autêntico baluarte da nossa estrutura familiar.

A lareira, transmitia um calor melancólico, mas muito aconchegante.

Sentados num velho escano, íamos debruando as palavras em torno de peripécias vividas em épocas bem distintas.

Ao lume, lá estava sempre o pote, onde era confecionada, a sopa mais maravilhosa, que eu havia comido.

Pousados num guarda-loiça, uma verdadeira coleção de compotas, que a minha Avó, tão bem sabia dar corpo, e que me presenteava nas minhas idas a sua casa.

Aquele olhar carregado, de ternura e cheio de ânsia, por fazer mais, e ainda mais, testemunhavam o quanto ela sabia ser uma boa anfitriã.

O silêncio era rompido pelo crepitar da lenha, a contra passo das batidas do velho relógio, que teimosamente persistia em evidenciar, o ritmo de uma casa, cúmplice da calmaria.

Os retratos de família, juntavam-se a uma imensa coleção de utensílios, caídos em desuso.

Uma máquina de cozinhar e um candeeiro a petróleo, uma candeia, de azeite, a juntar a vários adornos de porcelana e os candelabros rendilhados, emprestavam-lhe um ambiente muito próprio.

Era um verdadeiro álbum infindável de conhecimento, e experiências, que me ajudavam a crescer, e valorizar a vida, que transpirava história por todos os poros.

Na hora da despedida, havia sempre um ritual que eu a acostumei.

Junto a porta de saída, num bengaleiro, estavam a bengala e o chapéu do meu Avô.

Eu colocava-o na cabeça, e pegava naquela que foi a sua segunda companheira.

Arrancava-lhe um belo sorriso, envolto em nostalgia, a um rosto cheio de candura.

Fica-te bem Diogo!

Gracejava a minha Avó.

Ela era um monumento vivo, de experiencias de vida que eu herdara.

A riqueza de uma família, reside no testemunho que atravessa gerações.

Como de um caminho se tratasse, que serpenteava as nossas vidas, numa escola onde as lições ficam sempre incompletas!

Ou não fosse a vida, uma escola que todos frequentamos, onde o mestre é o tempo!

 

 

DIOGO_MAR

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

BRUMAS DE SILÊNCIO



A sala estava gélida, não pairava no ar o cheiro do teu perfume, nem a marca indelével do teu olhar e sorriso contagiante, que ofuscava os mais belos nenúfares da espuma dos dias.

A festa que outrora foi palco, deu lugar a um manto de cinzas empedernidas de nostalgia que me esmaga o peito, e se perdem pelas ameias da saudade.

Nas paredes, os quadros, eram janelas de pó.

Os meus passos, ecoavam como batuques a fervilharem mensagens dantescas.

Nunca o silêncio, me havia cravado no peito dor tão lancinante.

Os cristais, empoeirados pelo tempo.

As velas gastas e ressequidas.

Para lá do espaldar das cadeiras a longa mesa, com uma toalha, de renda amarelecida, cheia de vazio.

Ao centro, uma jarra, abandonada e despida.

Corri as cortinas carunchentas.

As portadas de madeira, imitiram um ranger estridente de desespero.

Os vitrais, outrora resplandecentes estavam mortiços, indiferentes à cadência dos dias.

O imponente piano de cauda, estava órfão a um canto, não sentia o calor da mestria dos teus dedos de veludo que o acariciavam como ninguém.

A sonoridade que outrora enchia a sala, com as melodias ternas e doces, que me projetavam, além do infinito.

Sobrava um silêncio ensurdecedor, polvilhado de ecos e vozes nostálgicas.

Partiste, não sei de ti.

Os meus olhos estão prenhos de ausência.

As lágrimas de sofrimento e amargura, escrevem no chão o teu nome.

Abraço o vazio enigmático, implorando a tua presença.

Restam despojos cristalizados num sentimento de saudade atroz.

Vergastado, pela dor da ausência, sinto-me um passageiro à margem do tempo.

O silêncio é castrador e sepulcral.

Ali estava eu, inerte, projetando-me ao tempo, em que havia vida, balbuciando palavras efémeras, num cálice de mosto analgésico.

Tudo me diz tanto de ti!

O velho relógio de parede adormecido, já não marcava o compasso da cumplicidade do nosso amor.

Agora, limito-me a um monólogo, que se esvai no culminar de um ciclo, o virar de página, o desfeche de um capítulo.

Uma história inacabada, nas estrias melancólicas da memória!

 


Diogo_Mar

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O MEU LEGO_HISTÓRIA_4



Lembro hoje, com ternura muitos dos meus brinquedos, que em cada fase da minha vida, me proporcionaram momentos únicos, de prazer.

O meu lego, e um exemplo acabado disso mesmo.

Todas as construções que eu fazia, dando largas a minha imaginação.

Carros, aviões, castelos, bombas de gasolina, camiões.

Sozinho, ou com os meus amigos, ele era efetivamente um atrativo as nossas brincadeiras.

Era um privilegiado já que cada caixinha pequena de lego, chegava a custar 500 escudos.

Isto só estava ao alcance de alguns, mas que os meus Pais me presenteavam, sabendo do enorme prazer que me dava fazer lego, além da importância para o meu desenvolvimento cognitivo.

Eram tempos diferentes dos de hoje, mas que tenho a sensação, que para lá estamos a caminhar.

Já que volto a assistir a clivagens sociais de veras preocupantes e até mesmo assustadoras.

Hoje mais que nessa altura, porque neste espaço de tempo perderam-se muitos dos valores solidários, que outrora tínhamos, e que norteavam a nossa conduta de vida.

Hoje cada um olha para o seu umbigo, pavoneando os seus bens materiais.

Nesse tempo, as pessoas, não tinham que se expor, para dizerem que sentiam fome.

Nós éramos vizinhos de proximidade, que sabíamos quem na verdade precisava de ajuda, e dizia-mos presente.

Hoje, tudo é diferente, temos fome na porta ao lado da nossa, mas por desconhecimento, ou porque queremos ignorar,

Pouco ou nada fazemos.

Mas voltando, as minhas coloridas e criativas construções de lego, por vezes carregadas de muita ilusão e de sonhos, dos objetivos de qualquer miúdo de 9 anos.

Uma casa grande, um carro era tudo aquilo que eu acalentava.

Lembro-me de um dia em que se levantou vento,

A cortina da janela do meu quarto resolveu ir dar um abraço, a uma grande construção que eu tinha feito, E que se encontrava por sobre a cómoda.

Era um avião enorme e muito bonito.

Levou-me semanas a construir.

Sim, digo era, e sabe porquê?

Quando no retorno da cortina para o seu sitio,

Ela arrastou uma das azas, que por sua vez precipitou todo o meu avião, fazendo em pedaços.

Quando mais tarde regressei ao meu quarto, dei de caras com um autêntico mar de lego, por tudo quanto era canto.

Claro está que soltei uns impropérios e roguei algumas pragas ao vento.

Bom, só me restava recolher tudo para dentro de uma enorme caixa, e pensar numa outra construção, que havia de tornar realidade, assim como muitos dos meus sonhos.

Fiquei com um sentimento de perda, mas a que fazer das fraquezas forças, e não cair em desânimo.

Eu adorava sentar-me no chão a dar corpo através do lego ao que eu idealizava.

Espalhava tudo, para ser mais fácil visualizar as peças que queria, e dessa forma tornar o meu trabalho mais desenvolto.

Nem os meus Pais se atreviam a entrar no meu quarto nestes momentos.

Enquanto eles fugiam, da confusão, eu estava feliz afogado no lego.

Mas para o senário estar perfeito, dava sempre uma fugida ao armário da cozinha, a buscar as línguas-de-gato, que ainda hoje sou grande apreciador.

Elas já tinham ganho um lugar de destaque na lista de compras lá de casa.

Esquecia-me das horas, perdia-me no tempo.

Também com 9 anos que pressa queria eu ter?

Tinha todo o tempo do mundo.

Só dava conta das horas quando a minha mãe me chamava para as refeições.

Diogo!

Sim Mãe!

Já vou!

Sempre gostei da minha pacatez e do meu quarto.

É aqui que tenho os meus brinquedos, e a coleção de peluches, que um destes dias vos ei-de trazer uma história.

Em suma é o meu espaço, e o palco de todas as minhas vivências, sonhos e ilusões!

 


DIOGO_MAR

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

FINGIMENTO



O engano faz-se verdade, nas linhas sinuosas e ziguezagueantes que escrevo.

O meu peito escarpado no desejo de um grito lancinante de emancipação, na noite onde estendo o lençol do tempo, escarnando os sentimentos num orgasmo imaculado.

As minhas palavras são pedras rudes e frias, que dilaceram um coração moribundo, em busca do puro-sangue da verdade.

Os meus ombros vergam-se, ao peso do mundo leviano e acusatório.

A razão esvai-se, nas asas do vento fugidio.

Eu aqui fico, ancorado neste porto longínquo, em busca do norte.

Arrebato ao coração sepulcrais vontades assassinadas ao desejo.

Venero os gigantes do tempo, à luz do divino e do pagão.

A cicatriz sangra, tatuando a franja dos dias.

A mesma mão que masturba, é a mesma que escreve e atira a pedra.

Não, não me chames de poeta.

Sou um qualquer, a saber de mim, no fundo de uma caverna, de costas voltadas para a verdade da razão, em palavras retorcidas, confinadas a uma ânsia asfixiante.

Espelho mentiroso.

Arco-íris de uma só cor.

Rio esmagado pelas margens.

O garrote do tempo, anuncia a chegada do carrasco, com mãos de libertação.

Das trevas se faz luz!

Será isto, a resignação, racional?

Ou a covardia irracional?

 

DIOGO_MAR

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O FAIR PLAY NO JOGO DO PIÃO_História_3



Ainda hoje, conservo muitos dos meus brinquedos, que outrora me proporcionaram momentos de muita alegria e satisfação, apossando-se de mim, um não sei quê de nostalgia.

Eles contam as histórias, onde fui protagonista.

Desde uma caixa de cartão cheia de lego.

Um exército com todos os soldados e equipamento bélico.

Uma coleção de animais que mais parecia um jardim zoológico, tal é a quantidade e variedade de bicharada que saía na compra de uma determinada marca de detergente para lavar roupa a mão.

Junto a tudo isto, uma coleção de miniaturas de carros, os meus berlindes, o meu cubo mágico, um protótipo de uma locomotiva do início do século e o meu ioiô.

Mas de todas estas recordações, há efetivamente, uma muito especial, que se destaca e guardo com muito carinho, é o meu pião.

Ainda hoje, ocupa um lugar de privilégio nos objetos de decoração da minha casa.

Foi o meu companheiro de muitas horas de prazer, disfrutadas e partilhadas, com os meus amigos.

Sorrisos e tristezas.

Vitórias e derrotas.

Ele, ensinou-me a ver, que a vida é uma longa caminhada, calcorreando caminhos tortuosos, de paladar acre-doce.

Lembro-me dos despiques ao jogo do pião.

O Rafael, era um verdadeiro ás.

O Daniel, logo lhe seguia.

Reconheço, que eu nunca tive grande jeito, até ao dia que o Rafa, se dispôs a ser meu mestre no lançamento do pião.

Bom, aí subi muitos níveis e comecei a empenhar-me, e rapidamente atingi o patamar do Rafa e do Dani.

Depois, bom depois era só juntar uns trocos dos recados que fazia, para estar sempre na vanguarda dos modelos de piões que o Sr. António tinha para vender.

Tornei-me um bom cliente de piões, ponteiras e cordel a que chamávamos faniqueira.

Era o meu jogo preferido.

Grandes emoções, grandes despiques, chegávamos a fazer, campeonatos entre aldeias.

Eu, o Rafa e o Daniel, era-mos os ídolos e os mais fortes candidatos a vitória.

O mais difícil de se digerir, eram os jogos entre nós, já que se tornavam muito competitivos e intensos.

Como já sabia das dificuldades do Rafael, assumir as derrotas, tentava sempre não me expressar efusivamente, quando ganhava para não espicaçar a sua fúria.

A nossa aldeia detinha os expoentes do jogo do pião, com os mais novos, e o da malha com os mais velhos.

Era-mos, imbuídos de um espirito e raça ganhadora.

Nós, fazíamos de claque dos mais velhos, na malha e eles, retribuíam em relação aos nossos campeonatos do pião.

Recordo uma dessas competições, entre aldeias, de um rapaz que nós bem conhecíamos, de outros torneios e da escola, era inegavelmente um bom jogador, viu o Rafa, desferir um lançamento feroz e certeiro, que simplesmente, abriu o pião do Rui ao meio.

Foi um momento de gáudio que suscitou um grande aplauso, de todos que estavam a presenciar.

Era o consumar da nossa vitória, já que a equipa dele, não tinha mais nenhum pião de reserva, ficando com um jogador a menos.

Mas algo me chamou a atenção, fazendo desvanecer a minha alegria.

Quando olhei para o Rui, vi os olhos rasos de lágrimas.

Todos riam dele.

Tive uma atitude, que deixou todos da minha equipa incrédulos, e revoltados.

Meti a mão ao bolço e tirei o meu pião suplente.

Toma Rui, vamos continuar o jogo.

O Rafael soltou o desabafo.

 

Diogo? O que estás a fazer?

Deves estar a brincar connosco, só pode.

 

Senti que tinha todos contra mim, até o meu Irmão Rodrigo, estava a ser-lhe difícil digerir aquele meu gesto.

Só o André, me apoiou.

O rui, agradeceu-me e lá continuamos o jogo.

Foi uma verdadeira hecatombe.

O Rui, rapidamente imergiu, e logo se tornou num sério candidato a vitória.

Foi então que o Rafa, indignado repetia.

 

Andamos uns a jogar para os outros!

Assim não dá!

Já podia ter isto ganho.

 

Mais adverso se tornou o ambiente para o meu lado, já que o Rui ganhou.

O Daniel, insurgia-se contra mim, dizendo.

 

Parabéns Diogo, foste um herói.

Perdemos por tua culpa.

 

O André tomou a minha defesa bem como o Rodrigo.

 

Vamos ver uma coisa, eu até poço ter alguma dificuldade em entender o que o Diogo fez.

Mas daí culpá-lo da derrota e expressar dessa forma o que estamos a sentir, é injusto.

 

Eu estava consciente do meu ato.

Magoava-me mais, era a frieza e a incompreensão, da parte de alguns dos meus amigos.

O Rui, entregou-me o pião e agradeceu-me, dizendo.

 

O que vocês estão a fazer ao Diogo é muito mau.

Nem sei que raio de amigos vocês são.

Ao júri, quero desde já dizer, que esta minha vitória, é para atribuir ao Diogo.

Não é que a equipa dele mereça, pela atitude que tomou.

Mas pelo gesto, que teve para comigo, já que a minha continuidade em jogo deveu-se graças à boa vontade, ao emprestar-me o pião suplente dele.

Quero que esta vitória seja toda do Diogo.

Fico tão feliz como se fosse minha.

Mais uma vez deste uma grande lição a todos nós.

 

Demos um abraço fraterno, carregado de emoção.

 

Se queres mesmo saber Diogo, esta atitude vinda de ti, não me surpreende, já que pautas a tua conduta, por uma postura irrepreensível.

Pensei, que a tua equipa, formada pelos teus amigos, te conhecessem melhor.

Terão que rever, o verdadeiro significado de amizade.

 

Mantive-me em silêncio, deixei que o Rui, desabafasse, a sua revolta, perante a injustiça que presenciava.

Ele, era um dos meus bons amigos.

Ali no jogo, pertencentes a aldeias diferentes, era-mos adversários.

Mas para mim, imperava sempre o lado humano.

Eu sei que o Rafael, tinha feito uma grande jogada, mas as lagrimas do Rui, iriam para sempre manchar a nossa vitória.

Obrigado Rui, fiz tudo isto porque quis, e em circunstância alguma estava a espera desta tua atitude.

Mas obrigado, soubeste retribuir da maneira mais nobre.

 

Não podia ser de outra forma Diogo.

 

Ficamos isolados dos nossos grupos.

Já que a equipa do Rui acabou por não gostar que ele me atribuísse a sua vitória.

Mas acima de tudo ficamos de consciência tranquila, e aprendemos e demos, mais uma boa e bonita lição.

Obrigado Rui.

 

Eu é que te agradeço Diogo, por seres meu amigo e por seres assim.

 

De regresso a casa, o ambiente estava gelado.

O grupo estava dividido.

O Rafael e o Daniel, caminhavam mais a frente e o silêncio era ensurdecedor.

Eu vi que o Rafa e o Dani, foram aos poucos retraindo o paço para que nós os pudéssemos alcançar.

Agora, já todos juntos e chegados ao largo da aldeia, ponto para cada um seguir para sua casa, lá nos despedimos.

Eu carregava um semblante de desilusão.

Sentia-me magoado com a postura do Rafa e do Dani.

Chau, fiquem bem até amanhã.

Só vos quero comunicar uma coisa, no caminho tomei uma decisão.

Não contem mais comigo para qualquer tipo de jogos.

Para mim acabou hoje.

Quanto a nossa amizade, Rafael e Daniel, é algo que ainda vou refletir.

A vossa atitude, deixou-me bastante desapontado, e apreensivo.

Mais uma coisa, aprendam o significado de fair play, vai vos ser muito útil pela vida fora, e engrandece-nos.

Eu sou assim.

Desta forma vou pautar a minha vida.

Quem quiser ser meu amigo de verdade, terá que me aceitar tal como sou.
Egoísmo não!

 

Diogo, tem calma, escuta uma coisa.

Achas que se tivesse sido o Rui, a rachar o pião de algum de nós, tinha tomado a mesma atitude?

 

Não, claro que não Rafael.

Mas sabes porquê?

Ele não tem mais nenhum pião.

Rafael, as atitudes ficam com quem as pratica.

O Rui, soube estar, e portar-se à altura de um campeão.

Comigo não contem mais.

Competir e ganhar sim, mas repito, com fair play!

 


Diogo_Mar

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

UMA TARDE NO RIO_HISTÓRIA_2



Preguiço na cama do tempo, como se ele fosse o relógio,

Onde os anos são horas,

Os meses os minutos,

Os dias segundos.

Percorro esse longo e íngreme caminho que me trouxe até aqui.

Vasculho na minha memória passagens que fizeram o meu livro de vida, que vou partilhando no meu blog, em forma de prosa, ou de poesia.

Vai daí, e já estou pronto para vos transmitir mais uma peripécia da minha adolescência, essa idade onde quase tudo nos é permitido fazer.

Só ainda não encontrei a definição correta, já que fico dividido entre:

Puberdade, ou pobre idade lol!

Seja lá como for, é o patamar mais aparvalhado, mas o mais belo da nossa existência.

 

Foi numa tarde, sob um sol escaldante, que castigava o alto Douro, como de resto é normal no pico do verão, que fomos até ao rio.

Era sempre assim, quando a temperatura, nos convidava a uns bons mergulhos, Naquele belo espelho de água, que banha aquela região.

Nós não nos fazíamos rogados.

O rio Douro, é o nosso ex-líbris da paisagem, parece que joga ao esconde esconde, por entre vales e montanhas, assim, como chama a si, a responsabilidade, por aquele microclima que disfrutamos naquelas paragens.

Ténis, calções, t-shirt e boné montados nas nossas bikes aí estávamos nós prontos para uma tarde de grandes emoções.

Eramos seguidos de perto pelo Dique, o meu Cão, que estava eufórico porque já sabia onde íamos, pela direção que estávamos a tomar.

Tenho que reconhecer, que vestir um fato de pelo, em dias de calor não devia ser nada agradável.

Por isso, toda a sua alegria desconcertante e trapalhona.

Tínhamos que o reprender por vezes, já que se atravessava por entre as bicicletas, atentando a nossa integridade física.

 

Vá, Dique, calma!

 

Repreendeu o André.

O caminho foi-se estreitando, seguíamos em fila indiana, o cão tomou a dianteira do pelotão.

Quanto mais nos aproximávamos, mais ele corria, língua de fora arfava com intensidade, agitando a cauda.

Íamos em roda livre, aproveitando a inclinação do traçado, que serpenteava os vinhedos.

As nossas narinas eram inundadas pelo perfume do mosto, sinal de uvas boas e maduras.

Eis chegados.

Encostamos as bicicletas, tiramos os ténis, as t-shirts e os bonés, e lá vai disto.

O Dique já estava todo encharcado.

Ladrava, expressando toda a sua alegria, parecia dizer que a temperatura da água, estava boa.

Claro está, provocando-nos para as brincadeiras que sempre fazemos com ele.

O Daniel e o André, foram os primeiros a lançarem-se a água, imediatamente seguidos por mim, o Rodrigo e o Rafael.

Sabíamos, dos cuidados que tínhamos de tomar, já que 3 anos antes, um rapaz de uma aldeia vizinha, tinha morrido afogado num local mais acima.

Daí a nossa atenção.

Embora, todos nadássemos bem, mas de heróis está o cemitério cheio.

Entre braçadas piruetas e brincadeiras com o Dique, a quem lançávamos um pau, e logo ele se atirava a água para o ir buscar.

Levamos uma bola, para darmos uns toques.

Estavam reunidos todos os requisitos para uma fantástica tarde de verão.

Não demorou, que mais gente chegasse.

O rio, era um ponto de encontro de diferentes gerações, nos dias quentes.

Não tínhamos que nos preocupar com os nossos haveres, já que dessa tarefa o Dique se encarregava.

Ninguém estranho ao nosso grupo, ousava aproximar-se do sítio onde estavam Os nossos pertences.

Tomava conta de tudo e até de nós.

Quando eu, ou o Rodrigo nos afastávamos mais da margem, ele ficava nervoso, ladrava freneticamente, como se nos estivesse a repreender.

 

Diogo, e Rodrigo, não nadem para longe, o cão não se cala!

 

Pedia o Rafa.

Nós era-mos profundos conhecedores daquele local, mas não fosse o Diabo tecê-las.

Regressamos ao perímetro em que o Dique nos consentia estar.

 

Vá, tem calma já cá estamos meu lindo.

 

Disse-lhe o Rodrigo.

Cobria-nos de lambidelas de satisfação, por nos ter de volta.

 

Diogo, ao teu cão, só lhe falta falar!

 

Diziam os outros rapazes, que foram chegando.

Fizemos um joguinho de futebol, e rematamos com mais um bom e reconfortante mergulho.

Amarramos as t-shirts aos guiadores das bikes e começamos a pedalar para casa, disfrutando daquela frondosa paisagem em anfiteatro que a natureza nos oferecia.

Fizemos uma paragem junto de um pessegueiro onde comíamos os mais saborosos e suculentos pêssegos.

Ao longo do percurso, fomos colhendo algumas amoras e uvas, das quais eramos apreciadores.

O que na ida para o rio era fácil, já que íamos quase em roda livre, agora tínhamos que pedalar com afinco.

Em alguns pontos, o caminho tornava-se bastante sinuoso.

 

Já dava outro mergulho Diogo!

 

Dizia o Rafa.

 

Até eu, retorquiu o Daniel.

 

Mesmo em tronco nu, o calor castigava.

Quando chegarmos a minha casa ligo a mangueira sugeri eu.

 

Diogo, tenho melhor ideia.

 

Qual André?

 

O meu Avô, tem o tanque cheio, para regar mais logo, por isso podemos lá ir dar um mergulho.

 

Boa, isso mesmo.

Bora lá, só vou a casa, deixar o Dique, e vou lá ter convosco.

Abri o portão fronteiriço, para o meu cão entrar.

Ele estava sequioso, e cansado.

Fiz-lhe uma festa, e segui viagem para casa do Avô do André, o Sr. Fonseca, um senhor muito simpático, de quem todos nós gostávamos.

 

Então rapazes, não chegou o banho no rio?

 

Quando se chega aqui acima, já temos de tomar outro banho.

Respondeu-lhe o André.

 

Temos por arte mágica, inverter a posição do caminho!

 

Gracejou o Rodrigo.

 

Pois, para baixo todos os santos ajudam, o pior é na vinda.

Mas vocês são novos e valentes!

Vá divirtam-se.

 

Obrigado Sr. Fonseca.

 

De nada Diogo.

 

Se quiserem comer, tu André, conheces os cantos a casa, e a tua Avó prepara-vos um merendeiro.

 

Ok, Avô, obrigado.

 

Não viemos para aqui, para dar trabalho, disse-lhe eu.

 

Ora essa, Diogo mas que trabalho que carapuça.

Gosto de vocês, e são amigos do meu neto.

Em minha casa, os amigos são sempre bem-vindos e bem recebidos!

 

Esta é a bandeira, que define as gentes Alto-durienses, serem amigas do amigo, e hospitaleiras.

 

Até logo rapazes.

 

Obrigado, e até logo, dissemos nós em uníssono.

E agora, 1 2 3!

Mergulhooo!!!

 


DIOGO_MAR

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

FRAGA ALTAR DA MINHA ALDEIA



Fraga encarquilhada pelo tempo, que se perde na história

Fraga gélida imponente e com memória.

 

A erosão a que o vento te castiga

Fazem um enlace ao traçado da minha vida.

 

Essa tua imponência, rugas e frieza

Dão contornos únicos a tua beleza.

 

Deitado no teu colo, oiço as histórias que tens para mim

Fecho os olhos, viajo no tempo

Folheio o livro do sem fim!

 

Acariciava as tuas rugas, e as gretas expostas ao tempo

No meu ouvido ecoava a tua voz, chorava de tristeza dor e de sofrimento.

 

Fraga gigante confidente do universo

Brotas palavras tão belas que não cabem neste verso.

 

As feridas rasgadas pelo vento agreste, desventrando o teu corpo

Numa luta titânica contra o tempo, trespassaram-te deixando morto.

 

Fraga altiva e serena, guardiã de histórias que se perdem no tempo

Sussurras-me ao ouvido a melodia do sentimento.

 

Gosto de te contemplar, lá no alto da serra, como se fosses o adamastor

A herança que em ti encerras, é o testemunho do meu amor.

 

 Amor que simbolizas, nesse corpo rude, escarpado e sofrido

És a bela de uma história onde fico adormecido.

 

Fraga da minha aldeia, marco geodésico altar para o mundo

Carregas aos ombros, séculos de lendas e mitos onde me perco feito vagabundo!

 

Património de Deus ou do homem, um testamento inacabado

Doaste-me um pedaço de ti, que ainda hoje guardo.

 

A tua voz, num murmúrio trémulo de saudade

Agastada pelos longos anos sem idade.

 

Viste o meu primeiro beijo, aquele que roubei

Fraga amiga, não contes a ninguém, eu também não contarei!

 

Um beijo de inocência da minha tenra infância

Dos verdes anos da minha adolescência.

 

Ainda hoje lá moras, adormecida dentro da tua altivez

Fraga da minha história

Acorda!

Diz comigo

Era uma vez?

 

 

DIOGO_MAR