sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

UM NATAL MAIS QUE PERFEITO HISTÓRIA_9


 
Lembro aquele natal inesquecível, foi o mais terno e feliz, que a minha família podia ter.

O processo de guarda do Rodrigo, requerido pelos meus Pais e Padrinhos, junto do tribunal, ficando com a sua custódia, finalmente teve o seu epílogo.

Os meus Pais, em conjunto com o nosso advogado, interpuseram recurso, devidamente fundamentado, de forma categórica e inequívoca, rebatendo a primeira tomada de decisão, que não nos tinha sido favorável.

Reuníamos todas as condições socioeconómicas, para ficarmos com o Rodrigo.

Além disso, éramos uma família solidamente estruturada.

O meu Pai, sabia muito bem esgrimir os seus direitos de Padrinho, e não se deixava vencer facilmente.

Tudo se resume, a uma questão de caráter e personalidade, da qual sou orgulhosamente herdeiro.

Era determinado na luta e defesa das causas.

Esta, era do afilhado, de quem tanto gosta.

A prepotência ditatorial do homem, e das leis, não podem padecer de tão profunda e cruel cegueira.

 

Acredita em nós Diogo.

 

Estas palavras e a forte convicção dos meus Pais, deixavam-me tranquilo.

Eu não tecia comentários, sobre o assunto ao Rodrigo, para não lhe elevar, os índices de ansiedade, tinha receio, que cometesse algum ato irrefletido.

Dado adquirido, ninguém da aldeia e da escola, aceitava que ele fosse para uma instituição, a começar por ele próprio.

Eu era muito contido no que concerne a esta matéria.

Seguia todas as instruções, que os meus Pais me tinham dado.

Não lhe devia alimentar, falsas espectativas.

Dizia-lhe sempre para ter esperança.

O Rodrigo, mostrava-se bastante revoltado, pelo empasse em que estava a decisão, do recurso entreposto.

Mas depositava nos meus Pais, toda a confiança, e desabafava dizendo.

 

Diogo, só os Padrinhos me podem salvar.

 

Eu todas as noites, rezava para que tudo corresse a nosso contento.

Fiz uma promessa à Santa Rita, dar-lhe nove velas, tantas como a idade do Rodrigo.

Pedia-lhe, para nos ajudar a ganhar esta questão, e dessa forma dar-me, o irmão que eu tanto queria.

A minha Mãe, depois da gravidez de alto risco, a quando da minha gestação, ficou impossibilitada de ter mais filhos.

Um de nós esteve a morrer, mas felizmente estamos cá os dois, e muito felizes.

Tenho a melhor Mãe do mundo, e eu tudo faço para ser um bom filho.

Ao fim de uma luta titânica, por parte dos meus Pais, fazendo valer o grau de parentesco de Padrinhos, tudo chegou a bom porto.

Foi um processo que esbarrou em vários obstáculos, já que o tribunal, mostrava-se intransigente, em abdicar da decisão de institucionalizar o Rodrigo.

Todos sofremos muito com esse fantasma a pairar sobre as nossas cabeças.

Era uma guilhotina, que a qualquer momento podia decepar a vida do Rodrigo, ferindo de morte, no seu amor-próprio, e a nossa, pelo amor que todos lhe temos.

A frieza e por vezes indiferença, que as mais altas instâncias, abordam e tratam, estes processos, são execráveis.

Eu sempre acreditei, na capacidade e eficiência do meu Pai, e do advogado a conduzir este assunto, tão melindroso.

Por vezes via-o de semblante carregado, quando lhe preguntava como ia o processo.

Ele era lacónico na resposta, outras vezes algo evasivo, Evitando o meu sofrimento.

Estava ciente da importância que eu dava a adoção do Rodrigo.

O meus Pais sempre me diziam.

 

Diogo, mantém a calma, tudo está a ser feito com o intuito de trazer para nossa casa definitivamente o Rodrigo.

Temos de dar tempo ao tempo.

Saber esperar é uma virtude, e devemos saber lidar com isso.

Escuta bem filho.

Faz disto um lema de vida.

Contra a teimosia, nada melhor que a abnegação e persistência.

 

Estávamos pela primeira semana de dezembro quando chegou a resposta pela boca do advogado.

Deslocou-se a nossa casa, reunimos na sala.

Aquele hiato de tempo, de abrir a pasta, pegar nas folhas, foram minutos transformados em horas.

Os meus Pais, transpareciam uma calma aparente, eu estava mais tenso.

 

Diogo, o Rodrigo é teu irmão.

Ganhamos o recurso.

Foi dado o veredicto final.

 

Não cabia em mim de tanta felicidade.

O sonho de ter um irmão, realizava-se.

Saltei do sofá, gritando.

Ganhamos ganhamos ganhamos.

Abracei os meus Pais a chorar de alegria.

Com tanta emoção, só sabia agradecer-lhes.

Vi lágrimas nos olhos dos meus Pais.

O semblante do advogado, transparecia felicidade, pelo dever cumprido.

Terminava ali o caminho tormentoso do Rodrigo e Os maus tratos, que o Pai lhe infligia, mais o calvário deixado, pelo abandono da Mãe.

Agora juntos, Íamos desbravar novos horizontes, para um traçado de vida em comum.

Partilhar os mesmos Pais, a mesma casa, a mesma mesa e as mesmas brincadeiras.

Deixei que fossem os meus Pais a darem a notícia ao Rodrigo.

Foi no almoço de sábado em minha casa, que lhe foi transmitido, tão ansioso desfeche.

Os olhos tinham um azul cintilante, sedentos por saber qual o destino que o esperava.

Estava de rosto algo fechado, vi-lhe muito medo, daquele momento.

Foi então que o meu Pai, disse.

 

Rodrigo, este natal vai ser diferente.

 

Aquela pausa, parecia infindável.

 

Como assim Padrinho?

 

Esta casa é tua, o Diogo é teu irmão, nós os teus Pais.

 

Caiu num choro convulsivo, abraçado a mim, dizendo: finalmente somos irmãos!

Não cabia nele, de tanta euforia.

 

Somos irmãos Diogo!

Deus existe!

A Santa Rita também!

 

Abraçou o meu Pai dando-lhe um beijo, obrigado Padrinho, és um herói.

 

Rodrigo, não há heróis, há sim, garra e determinação, de lutar pelos nossos objetivos.

 

Acabou no colo da minha Mãe, momento carregado de enorme singularidade, e afeto.

Não tinha memória, de ser acolhido pelo único e melhor regaço do mundo, o de Mãe.

 

Adoro-te Mãe.

Agora não vos trato por Padrinhos, mas sim por meus Pais.

Tudo vou fazer, para vos retribuir e agradecer, todo o empenho na defesa desta minha causa.

Saberei estar a altura, da aposta que fizeram, e do investimento que vão fazer em mim.

Obrigado Pai, Mãe e mano, aquece-me o coração, poder prenunciar estes nomes.

 

Rodrigo, vamos-te ministrar os mesmos padrões educacionais do Diogo.

A partir de hoje, tens os mesmos direitos e obrigações do teu irmão.

 

Sim Pai, é justo que assim seja.

 

A minha Mãe afagava-lhe o rosto, e cobria-o de beijos, da forma carinhosa que eu bem conhecia.

Fui inundado por uma inusitada felicidade.

 

Bom, meninos, sabem qual vão ser as vossas tarefas para esta tarde?

 

O quê Pai?

 

Preparar o quarto do Rodrigo, e depois uma surpresa.

 

Qual?

Preguntamos em uníssono.

 

Vamos todos fazer a nossa árvore de natal, este ano ela reveste-se de um significado, redobrado e especial.

 

Boa, o pinheiro de natal vai-se chamar Rodrigo!

 

Não Diogo, vamos é deitá-lo no presépio!

 

Gracejou o meu Pai.

Soltamos em coro, uma sonora gargalhada.

Respirava-se um ar pleno de felicidade.

 

Agora meninos, acabou o secretismo relacionado com o processo do Rodrigo.

Quanto aos trâmites que faltam, nos próximos dias tudo ficará concluído.

Já podem dizer na aldeia, e na escola que ele está definitivamente em nossa casa, e que faz parte integrante da nossa família.

Assim se faz o natal!!!

 
DIOGO_MAR

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O AVESSO DO NATAL



Ora aí está, mais uma vez o frenesim e o consumismo exacerbado do Natal, circunscrito aos bens materiais.

Temos mais do mesmo é assim todos os anos.

Haja dinheiro e créditos, que esta gente embriaga-se de compras.

Compras e mais compras, como se não houvesse amanhã.

Gasta-se o que se tem, e o que não se tem.

Mas eu quero!

E continuo a crer, e crer muito!

É esta mentalidade irrealista, possuída pela sofreguidão vorás que nos conduzi-o a esta realidade pantanosa, onde submergiram os valores.

Muita gente, carrega orgulhosamente o estandarte dessa praga que descaracterizou esta época festiva.

Mais grave, é a herança que passaram e teimosamente continuam a passar aos seus descendentes.

A correria desenfreada a bens supérfluos, só porque fica bem exibi-los perante os outros transforma o espírito natalício, num espírito de hipocrisia doentio.

Tudo se esfuma, na manhã do dia seguinte, num oceano de papéis de embrulho e numa montanha de caixas, agora despojadas de sonhos e ilusões.

Depois vestem a pele de falsos moralistas quando confrontados com este flagelo social.

Haja pudor!

 


Diogo Mar

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

HISTÓRIA SEM IDADE História_8





Foi numa daquelas tardes pardacentas de verdadeiro ócio, que despoletou em mim a vontade de viajar até ao velho sotam.

Tinha espreitado pela janela do meu quarto, e constatei do frio que estava lá fora, de mão dada com um céu toldado de nuvens a prometer chuva a qualquer momento.

Vesti um fato de treino, de resto é a indumentária que mais gosto de trazer por casa.

Corri a tampa do alçapão de acesso ao sótão, era como se estivesse a abrir a janela do tempo, onde estão guardados anos de múltiplas vivências.

Mal esta deslisou, as minhas narinas foram inundadas por pó, e um cheiro marcante a mofo.

Depois de uma série de espilros, lá continuei a minha cruzada de remover pó e algumas teias de aranha, que pareciam ter feito uma barreira protetora as minhas recordações.

Ali estava ao canto o meu velho cavalinho de madeira, a quem fiz um poema publicado aqui no blog.

Abria cada caixa como se fosse uma prenda acabada de receber.

Era uma verdadeira incógnita o que lá estaria dentro.

Até o frenesim de as abrir me faziam voltar aos tempos de criança, faminta de saciar a minha curiosidade.

A primeira estava cheia de carros de coleção, alguns já oxidados pelo tempo.

Eles foram os meus campeões em corridas que fazia com os meus amigos.

O meu preferido era um carro vermelho que de tanto uso estava gasto a cor já esbatida.

Contemplei-o durante alguns minutos, rebobinando o filme da minha memória.

Chi!

Agora, era tão pequeno na minha mão crescida, cheia de mundo.

Filo deslisar no chão do sótão.

Estava lento, tinha perdido o fulgor de outros tempos!

Tirei-os para fora da caixa, um a um, como se folheasse um livro de episódios, de memórias de anos longincos, mas que eu gostava de reviver.

Deixei-me embalar pelo berço do tempo, das horas morrentes de saudade.

Não tinha reparado que bem lá no fundo estava uma cobra e uma tarântula de borracha que faziam as minhas delícias para assustar as pessoas pelo carnaval.

Ups!

Desta vez quem se assustou fui eu!

Logo eu, que detesto répteis.

Esfreguei os braços, já que tinha ficado com pele de galinha e recoloquei-os onde estavam.

Ainda recordo, o grande susto, que preguei a Miquinhas padeira, quando lhe pendurei, no puxador da porta a cobra.

Brincadeira, que me custou uma bofetada da minha mãe, e um castigo, já que a senhora, sentiu-se mal, chegando mesmo a desmaiar.

Abri a segunda caixa.

Estava cheia de animais, que vinham como brinde, no interior de uma marca de detergente em pó, para lavar roupa.

Bom, tanta bicharada que dava certamente, para fazer um jardim zoológico completo.

Libertei os todos.

Sentado no chão, agora estava rodeado por carros e animais.

Reparei nos cavalos que punha ao serviço dos guardas do castelo, que fazia em lego.

Fui para a terceira caixa, era a maior de todas, tinha vindo lá dentro a máquina de lavar roupa.

Abri as tampas, carregadas de pó, la vieram mais meia dúzia de espilros.

Atchim!

Acho que por este andar vou sair daqui sem nariz.

Soltei uma gargalhada, ao deparar-me com a minha primeira mochila, tinha estampado o Marco.

Personagem de uma boa série, que passava na televisão.

Contempleia, assim permaneci durante alguns instantes.

Tinha transportado nela muito daquilo que hoje sei.

Foi o primeiro degrau de uma longa escadaria, de aprendizagem e conhecimento.

Fui inundado, por uma nostalgia revestida de um misto de alegria e saudade.

Foi como se o relógio parasse.

Vasculhei toda a caixa, numa verdadeira ânsia de ver as histórias, que ali estavam guardadas.

Fisgas, bolas, pião, cubo mágico, ioiô, berlindes, lego, carros telecomandados e uma velha locomotiva.

Seria ela a máquina do tempo, de uma viagem que eu estava a ser o maquinista?

Mas esta panóplia de recordações não se ficava por aqui.

Os meus jogos do micado, o sabichão, o monopólio e a batalha naval.

Eis que surgem as barbatanas os óculos e as boias de levar para a praia.

Dentro da minha velha e gasta mochila, lá encontrei as minhas cadernetas de cromos que folheei lentamente como se estivesse a venerar os meus heróis, de tempos idos.

De repente cai um pequeno papel, olhei, fiquei pregado.

Eu não acredito!

Era um dos bilhetes que trocava com a Rita, a minha primeira namorada.

Ó saudade!

No meu estojo, ainda morava um lápis, aguça a borracha e os cromos repetidos, bem como o cartão de estudante, com uma fotografia dos meus 10 anos.

Sem que eu desse por isso, estava uma tarde muito bem passada.

Dei início a tarefa, de encaixotar cuidadosamente, todos os capítulos, que narram uma história bem presente.

Tinha dado corpo a uma cúmplice aliança, com tempos idos, que fazem parte do meu eu, onde gosto de me perder!

 

DIOGO_MAR

domingo, 30 de novembro de 2014

ESTRADA ANTIGA





Trago-vos mais um excelente post deste jovem promissor e meu amigo, aquém abri uma janela de oportunidade.

Atentem!

 

 

Há quem diga, que quando ouvimos o vento a passar na Estrada Antiga, e com ele aquele marulhar tao longe do mar, que estamos a ouvir o fôlego dos homens e dos cavalos que por la passaram, misturados com o soluçar abafado das crianças que com eles viajavam, para onde iam, ninguém sabia, mas viam a caravana passar uma e outra vez, todos os anos, numa sexta-feira 13.

E todos os anos voltavam pela mesma estrada, homens envergando a cruz do Senhor no peito, transpirando alívio de dever cumprido.

E o vento trazia-lhes memórias de quando eram jovens e tinham percorrido aquela Estrada, que estava mais Antiga, homens que findos os seus deveres para com o mundo, retornavam agora a casa.

Um dia seriam os seus filhos, sempre foi assim e sempre o será.

E a chuva caía e com ela as lágrimas dos homens que voltavam, que foram crianças, que tinham partido...

Se passares pela Estrada Antiga, presta atenção::

Entre o som de gotas de chuva, ouvirás as lágrimas dos homens e das crianças que por ali passaram e, no meio dos trovões, distinguirás o trote dos cavalos que os transportavam.

Mas inspira fundo, e sentirás o ar salgado.

Salgado do choro dos que por lá passaram!

 

Cláudio Macieira

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

UMA BOLA QUADRADA HISTÓRIA_7



Corpo franzino, moreno, olhos pretos, cabelo grisalho de olhar e explícito, ele era o um campeão, a jogar a bola.

A garra e entrega que evidenciava a jogar, faziam dele um ídolo, da nossa turma, e da escola em campeonatos interescolares.

O Daniel, era idolatrado por todos nós.



Vai Daniel, marca!

Golo!!!



O seu nome, ecoava pelos campos onde a nossa turma, e escola ia jogar.

Ele, não era um aluno brilhante, longe disso, mostrava grande falta de concentração, e uma enorme revolta.

Na sala de aulas ocupava sempre os últimos lugares.

Método simplista, de o marginalizar, ou exclui-lo, do resto da turma, com o qual eu, não concordava.

Ainda lembro, a repreensão que levei da professora, por me ter manifestado contra aquela atitude.

Eu era o seu melhor amigo.

Não esqueço o dia em que o Daniel, com voz trémula soltou o desabafo, dizendo.

 

Pois, aqui eu não sirvo para nada, só quando jogamos à bola é que se lembram de mim.

A isso chama-se hipocrisia.

 

Bem o compreendia, já que vivia-mos na mesma aldeia, ele fazia parte do meu grupo de amigos, muitas vezes confidenciava-me, a tristeza que lhe ia na alma.

O futebol, era o escape da sua raiva.

Fazia-se sempre acompanhar do boné, e a bola, debaixo do braço, era a sua imagem de marca.

A vida do Daniel não era nada fácil.

Vivia com a Avó, uma senhora já de alguma idade, criando um foço que descambava, num conflito de gerações.

As dificuldades económicas eram latentes.

Não fosse o sentido solidário que reinava na aldeia, a alguns só lhes restava, a institucionalização.

Quadro esse, que o Daniel rejeitava de forma categórica.

Muitas vezes desabafava comigo dizendo.

 

Diogo, por vezes pergunto a mim mesmo, para quê que nasci.

Os meus Pais nem se lembram que existo.

 

Ia chutando a bola, contra o muro a compasso, matando as pausas que se faziam na conversa.

Isso até que era verdade, o Pai do Daniel, há muito que tinha imigrado para o Brasil, a Mãe, havia enveredado pelo caminho da prostituição, vindo depois a juntar-se com um homem, do qual já tem um filho.

Recordo, uma tarde que estávamos a jogar berlindes, no pátio da casa do Daniel, quando ela chegou.

 

Olá Filho!

Estás grande e bonito.

 

O Daniel manteve-se imóvel, ignorando a presença dela.

 

Não me dás um beijo?

 

Eu não costumo beijar estranhos.

 

Trago-te aqui um spectrum 48k e jogos.

 

Pensava ela estar a dar-lhe um grande presente, mas o Daniel foi incisivo e lacónico.

 

Vens dar-me isto, para quê?

Visitas-me duas ou três vezes no ano, para me dares presentes, mas ignoras o que eu mais preciso.

Sabes o que é?

Pois, pela tua cara, já vejo que não.

Vives com outro homem, de quem já tens um filho, e eu?

Sou o suplente?

É isso?

Estou para aqui esquecido e abandonado nesta aldeia com a minha Avó, que tudo faz por mim, mas o que eu mais queria, era ter Pai, e Mãe!

Dele não sei nada, e de ti nada sei, nem quero saber.

Eu não quero prendas, quero sim, amor e carinho.

Quero ser um adolescente como os outros.

Vens-me trazer presentes, usados pelo teu outro filho?

O que para ele, já não serve, trazes para mim?

Eu não sou caixote de lixo.

Nem sou o outro!

Sei que infelizmente sem ter feito nada por isso, sou filho de um Deus menor.

Tu alimentas esta injustiça, à 8 anos haver dois pesos e duas medidas.

Ou tornei-me teu enteado?

Foi isso?

Faz-me um favor.

Esquece que eu existo.

Não te quero ver mais.

Não me procures.

Eu morri.

Vai-te embora, e leva o que trouxeste.

Se já não serve para ele, também não ade servir para mim.

Ou então, dá a uma instituição.

 

Colocou o braço sobre os meus ombros, e acrescentou.

 

Os meus amigos da aldeia, não se esquecem de mim, com eles, sei que poço incondicionalmente contar.

Exemplo disso, é o Diogo, e a família dele.

Deixa-me em paz, e segue o teu caminho.

 

Senti-me confrangido perante tal situação.

Tem calma Daniel.

 

Diogo, tu és o meu melhor amigo, conheces-me como ninguém, e sabes que sou frontal.

 

Mas Daniel, é a tua Mãe!

 

Avó, ser Mãe é estar presente, é dar amor e carinho.

Ao longo destes anos ela teve um só dia para estar comigo?

Diga lá, teve?

Acho que o único tempo que teve para mim foi para me dar à luz.

Para me trazer a este mundo de sofrimento.

Desaparece.

Quando faço anos nem sempre te lembras da data.

Agora que estamos a chegar ao Natal, apareces com as sobras do teu filho, sim porque esse é o teu filho.

Eu, sou aquele que estou para aqui, a quem tu nem um telefonema fazes.

Nem te preocupas como vou na escola, nem se estou doente, ou a passar fome.

Como queres que eu veja em ti uma Mãe?

Sabes, não sou hipócrita.

Prefiro as verdades, mesmo que elas magoem, que a mentira, ou fingimento.

Alguma vez quiseste saber qual foi a minha primeira palavra que escrevi?

Foi Mãe.

É o que não tenho.

Olhar para ti, ou para uma outra mulher, é a mesmíssima coisa.

No teu olhar nunca vi ternura, e ânsia por mim.

Vejo sim, frieza, e distância.

Acho que perdeste a noção do tempo.

O Daniel, cresceu, já tenho 12 anos.

Chegas junto de mim, e perguntas.

Está tudo bem filho?

Achas, que está?

 

Mas eu, Daniel.

 

Não, não quero que te desculpes, e muito menos que te justifiques.

 

Mas filho, ouve-me!

 

Não me venhas com mais falsas promessas.

Eu não quero, nem preciso das tuas esmolas, nem dos brinquedos que o teu outro filho já não usa.

Não me compram, com bens materiais.

Sabes, a minha vida é uma bola, só lamento, que seja uma bola quadrada!

Mas ainda hei-de, marcar muitos golos, na baliza da vida!

Irei festejar as vitórias, e aprender com as derrotas.

Mas tudo farei, para ser sempre justo!

 

 

DIOGO_MAR

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

UMA MORTE ANUNCIADA



Lavramos os dias, calcorreando caminhos inóspitos vestidos de breu e amargura, prenhos de incógnitas, num palco de realizações e frustrações, onde não passamos, de meros atores, espezinhados, e reduzidos a uma ínfima partícula numerada.

Regamos incessantemente, a planta da esperança, que não é mais que um falso alimento para a alma, um pedido de empréstimo, contraído à felicidade, pautada por um adiamento perpétuo.

Nós, prisioneiros, de pés acorrentados a bolas de ferro incandescente, arrastamo-los ensanguentados, desfalecendo impotentes, por sobre os nossos desgarrados sonhos, reduzidos a lágrimas lúgubres de sofrimento, tornando-os numa miragem.

Estamos exaustos, ultrajados e sem rumo!

A realidade nua e crua, cilindra a espuma dos dias, emprestando-lhe uma cor pardacenta, um lusco-fusco onde pairam as nossas silhuetas cadavéricas, num desalento ferido de morte.

Abortamos ou adiamos planos, que nos conduzem a tão almejada felicidade, que fugidia, se perde pelos recônditos cantos viciados e empedernidos de um inusitado narcisismo doentio.

Não passamos de meros objetos usados e abusados, pelo fundamentalismo religioso, bem como pela promiscuidade, do tabuleiro do xadrez político e financeiro.

Este é o preço inevitável da globalização, excêntrica e aglutinadora.

A sociedade entrou numa verdadeira espiral de intolerância, é um verdadeiro vulcão a expelir raiva e ódio.

Perdemos o norte e as referências, que nos foram incutidas e pelas quais regíamos a nossa conduta, agora escravizada, amordaçada e rendida ao gáudio do materialismo.

Vegetamos na sombra dos dias, com a vida a passarmos ao lado, irremediavelmente condenados as clivagens sociais, da guilhotina cega e raivosa, do capitalismo voraz, sem pejo em decepar-nos o futuro.

Esta aldeia global, está a ser varrida, por ventos que transportam uma desumanidade férrea, demolidora e implacável.

Para onde vamos???

 

“Os inteligentes construíram o mundo. Mas quem disfruta dele e triunfa são os imbecis.”

Pino Aprile

 

 

Diogo Mar

domingo, 2 de novembro de 2014

AS CINZAS DOS DIAS



Dedo em riste, palavras de ferro incandescente, jorrado à tua altivez faraónica, arrasto-me feito restolho, pelos ventos agrestes e sinistros que pela noite cantam.

As paredes febris transpiram lágrimas envenenadas pela solidão.

A janela indiscreta é a montra para o abismo, de um mundo infame e sem norte, num bulício frenético, ébrio de desalento, que devora sôfrego e alarvemente o egocentrismo.

Os valores submergem num oceano de águas cruéis salgadas pela indiferença.

Perdemo-nos, na metamorfose da penumbra de becos lamacentos, onde reina a obscuridade.

Não sei de mim!

Este labirinto existencial, de relutância na aceitação de uma sociedade efémera e petrificada pela escravatura do materialismo, asfixia as minhas referências tornando-as moribundas na minha memória.

Sinto-me perdido!

Terra, faminta e carente, pelo fertilizante do verdadeiro altruísmo, regada com a dignidade.

Alma cega

Coração de pedra

Lábios de chumbo

Sociedade em delírio, acorrentada e vergada ao jugo da superficialidade e da fachada, onde não cabe a verticalidade e carater.

Encerro a janela indiscreta, tranco-a com os ferrolhos lúgubres e corro a cortina do desencanto.

Lá fora, o mundo em ruinas, vegeta de forma penosa, venerando exuberantemente o egoísmo no crepúsculo do desalento.

 

 

Diogo Mar