domingo, 22 de março de 2015

A DECOMPOSIÇÃO DOS TEMPOS



Estamos coagidos pela leviandade do garrote da letargia, que acorrenta a nossa dignidade e nos asfixia.

Alugamo-nos, vendemo-nos, prostituímo-nos.

Entramos em decomposição, vergados ao jugo avaro e subversivo do materialismo.

Perdemos e vendemos a nossa identidade, tornando-a impercetível, enclausurando-a numa objetividade subjetiva.

A artificialidade, de carater e personalidade, mergulha-nos num marasmo hipócrita, de definições indefinidas, corrompidas de forma avulsa, na fonte da humilhação.

Uma travessia inquinada a diluir-se, em falsos moralismos, medos e preconceitos, a definhar numa racionalidade superficial e bolorenta.

A dignidade, agoniza num brinde imolado, em páginas lúgubres.

Urge a necessidade, de um núcleo de lucidez, ávido pela exaltação da liberdade emancipadora, preconizada por uma fruição assente no mais puro altruísmo.

A chave para a vitória, reside na derrota da ignorância.

 

DIOGO_MAR

terça-feira, 17 de março de 2015

GESTOS SIMPLES E PEQUENOS HISTÓRIA_13



Aquela manhã acordou sob um sol esplendoroso.

Estávamos pelos meados do mês de Março.

Da janela de sacada do meu quarto, onde muitas vezes me sento a ler, disfrutava de um quadro paisagístico privilegiado, para o Douro vinhateiro, mas que nesta altura nos oferecia um outro espetáculo, de uma beleza inigualável.

São as amendoeiras e cerejeiras em flor.

Tricotavam as encostas emprestando-lhe uma beleza húmica, um senário deslumbrante.

A minha casa ou paraíso como lhe chamava o meu Pai, ficava sobranceira à margem direita do rio Douro, estávamos em pleno coração da zona demarcada do vinho do Porto, património da humanidade, e a região vinícola demarcada, mais antiga do mundo, decretada pelo Marquês de Pombal em 1756 sublimemente escrita e retratada por Miguel Torga.

Acordei com um doce e terno beijinho da minha Mãe, sussurrando-me.

 

Acorda Filho!

Diogo?

Vá, acorda!

Anda daí, meu preguiçoso!

 

Olá Mãe, bom dia.

Esfreguei os olhos, preguicei um pouco e saltei da cama.

Acerquei-me da janela e olhei, para aquele anfiteatro de beleza única!

O vale de todos os encantos, onde o rio douro, finta e brinca as escondidinhas com as serras.

Já era um ritual diário.

Não há dúvida, que era a melhor forma de começar o dia!

A minha mãe, tinha de véspera combinado comigo, ir a vila, para comprar uns ténis e dois pares de calças, já que o meu crescimento assim o obrigava.

Vesti-me num ápice, e quando desci para tomar o pequeno-almoço já ela estava na cozinha, a dar andamento a nossa primeira refeição do dia.

Dei-lhe o um beijo, ela retribuiu-me, dizendo.

 

Olá Dioguinho, bom dia. Dormiste bem filho?

Pelo menos a avaliar pelos teus olhitos parece que sim.

 

Deixei escapar um bocejo, retardatário.

Dormi bem sim Mãe.

Que motivos havia eu de ter com 13 anos para não dormir bem?

Ainda não tinha entrado no mundo a que os meus Pais chamam de selva.

 

Bom, Diogo, vamos lá despacha-te porque ainda tenho de ir trabalhar.

 

Eu tinha uma boa relação com a minha mãe, aliás com os meus pais.

Por vezes lá surgiam laivos de infantilidade, coisa normal da minha tenra idade.

Estava feliz, gostava de fazer compras, e sabia que além dos ténis e das calças, em algo mais podia ser presenteado.

Dessa forma, podia oferecer ao Rodrigo, o irmão que eu não tinha, toda a roupa que não se compadeceu, com o meu desenvolvimento físico.

Era sempre assim.

Passava de mim para ele.

Os meus Pais e Padrinhos do Rodrigo, tudo faziam por ele.

Na aldeia havia um espirito solidário, para com aqueles que viviam com mais dificuldades económicas.

Outra alternativa, era dar a comissão fabriqueira da nossa igreja, para que depois procedessem à sua distribuição por famílias carenciadas.

Atravessamos o jardim fronteiriço da minha casa, com a escolta do Dique, o meu cãozarrão, presenteando-o com um biscoito e uma carícia.

A minha Mãe, fez-se a estrada que nos havia de levar até a vila.

Durante a viagem, lá me foi dando alguns conselhos, em relação ao comportamento e aproveitamento na escola, que tem sido exemplar, alertando-me, para o meu futuro, que está em jogo.

Chegados, presenteou-me com um pastel de nata que sou grande apreciador.

Lá fui eu, lambuzando-me pelo caminho, até entrar-mos no pronto-a-vestir.

Eramos bons e habituais clientes.

Fomos recebidos, com saudações efusivas, da parte da Dona Fernanda, proprietária da loja.

Inevitavelmente, insidio sobre mim, os comentários e as perguntas.

 

Olá Diogo, estás grande e supere bonito!

Que olhos lindos!

Não te devem faltar raparigas a traz de ti!

Eu imagino!

Já namoras?

Quem é a sortuda?

Não me importava nada que fosse a minha filha.

Estás um homem!

 

Nunca entendi muito bem esse comentário, porque acho que nunca fui mulher lol.

Agradeci-lhe, mas não gosto nada de me ver naquele papel de cabeça de cartaz.

E muito menos namorar com a filha dela, miúda chata, e sem assunto.

Muito básica.

Pior ainda foi quando corei, e ela riu de mim, e sublinhou tudo aquilo que já tinha dito.

Por favor tirem-me deste filme!

A minha Mãe, sabendo que eu me estava a sentir confrangido, abreviou a conversa dizendo, que estava com alguma pressa e até estava mesmo, já que ainda ia trabalhar.

Mas foi ótimo, já que a nossa tarefa avançou de forma bem célere.

Reconheço que também nunca tive pachorra para perder muito tempo a fazer compras.

Acho que as lojas, devem ser local de visita, para adquirirmos o que necessitamos, e não estar ali a fazer sala.

Lá escolhi os dois pares de calças, que acabaram por serem três, já que a dona Fernanda, resolveu fazer um bom desconto, e trouxe uma sweatshirt cor verde-mar, muito bonita.


De seguida, dirigimo-nos a sapataria, onde habitualmente tem ténis Giros.


Respirei de alívio quando me vi libre daquela senhora, e do seu questionário, e dos elogios.

Uf, até que em fim.

Estava a ver que não.

Estava perto de um ataque de nervos.

Ela e simpática, mas é grande melga!

A minha Mãe, soltou uma gargalhada.

Entrados na sapataria, logo me assaltou a vista, uns ténis muito bonitos em tons de preto e laranja.

Mas reparei que eram os mais caros.

A minha Mãe deixa que seja eu a escolher, diz que se é para mim, eu é que devo fazer.

Claro está, dentro de limites de quantidade e valor.

Embora vivêssemos de uma forma desafogada, os meus Pais trabalhavam muito para manter, o nosso padrão de vida.

Ficava sempre embaraçado, quando a minha Mãe me questionava.

 

Então Diogo, quais são os que gostas?

 

Disfarcei, fazendo um olhar corrido por todos, mas estava-me na retina os ténis pretos e laranja.

Ela, que me conhece como ninguém, esticou a mão e pegou neles.

 

São estes?

 

Leu nos meus olhos a minha resposta.

De uma forma espontânea deu-me um beijo.

 

São muito bonitos, eu gosto muito deles Mãe.

Mas são os mais caros!

 

Pois, tu tens olho para as coisas boas, e ainda bem que assim é.

És um rapaz de bom gosto!

 

Comentou a funcionária da loja.

Calcei-os, ó, servem!

Ficam-me bem.

Agora estava de ténis novos, calças novas e sweatshirt tudo a estriar.

Quando saímos da loja, abracei-a e dei-lhe um beijo.

Obrigado Mãe!

 

Faz sempre por mereceres Diogo.

Sabes que só tens a ganhar, se cumprires sempre com a tua parte.

 

Eu sei, e vou sempre tudo fazer para nunca vos defraudar.

 

Agora apanhas a carreira para casa, e eu vou trabalhar.

 

Mãe? Depois fazemos o saco das roupas que já não me servem para dar ao Rodrigo?

 

Sim, depois durante o fim-de-semana fazemos isso pode ser?

 

Sim claro.

 

Toma dinheiro para o bilhete e compra uns bolos para o vosso lanche.

 

Esbocei um sorriso que me inundou o rosto.

Tudo aquilo que eu poça partilhar com os meus amigos, desperta em mim um efeito de felicidade.

Ia convidá-los, para irem lanchar a minha casa e poder disfrutar desses momentos em que estamos juntos, num perfeito e harmonioso convívio.

Gosto de ser simpático, com as pessoas, com as quais me identifico.

Reconheço, que não tenho muitos amigos, mas os que tenho, são os que fazem por merecer a minha cota de amizade e confiança.

Sou pela velha máxima, poucos mas bons.

Nunca a quantidade foi sinonimo de qualidade.

Ou gosto, ou não gosto. É muito simples.

Para mim, não existe o assim-assim.

Sou mais fraturante que consensual.

Eu sei.

Não faço fretes.

Por tudo isto, na escola diziam, que eu era antipático e que tinha mau feitio.

Mas nunca foi apreciação que me incomodasse.

Sou feliz e gosto de ser assim.

Personalidade e carater muito forte. O resto, bom, o resto estou-me nas tintas para o que digam, ou pensem.

Jamais em circunstância alguma abdico de ser igual a mim próprio.

Quem não gostar, que ponha na beira do prato, e estamos conversados.

A minha Mãe, diz que eu tenho o feitio do meu Pai, herança da qual me orgulho.

 Encontrei pelo caminho o André que tinha ido fazer um recado ao Avô.

 

Grande estilo!

Ténis novos calças novas, e sweatshirt nova.

 

Estás fixe!

 

Obrigado André.

Bom, vou para casa, tratar da bicharada, e do meu almoço.

Logo, lanchamos juntos, comprei bolos para todos.

 

André, depois do almoço podia-mos ir dar uma volta de bicicleta.

 

Boa ideia!

 

Passa por minha casa.

Vou ver se o Dani e o Rafa e o Ródri podem vir.

Até logo André.

Bom apetite.

 

Igualmente Diogo.

 

Entrado em casa, tocaram a campainha.

Espreitei e vi o Rodrigo.

Acionei o comando, para abrir o portão.

Claro está, que o Dique, fez a escolta do Ródri até à porta da entrada, aos saltos e lambedelas, agitando a cauda num movimento frenético.

Latia de felicidade, dando-lhe as boas-vindas.

 

Ei! Grande pinta!

A roupa e os ténis, são muito bonitos.

Vi-te a passar na carreira, e resolvi dar aqui uma saltada.

Hoje não tenho ninguém em casa.

 

Boa, sendo assim, almoça comigo, tenho comida que chega para os dois.

 

Mas?

 

Vá, sem comentários, não aceito negas.

És meu convidado.

Torna-se mais agradável partilhar a refeição com outra pessoa.

Bora lá, vou tirar esta roupa vestir o fato de treino, e vamos fritar uns riçóis, para acompanhar com o arroz.

Dizem que os olhos são o espelho da alma, isso no Rodrigo é bem notório.

Já que eles se enchem de brilho.

Era uma união perfeita o azul resplandecente do seu olhar, com o sorriso de felicidade contagiante, que lhe inundava o rosto.

 

Se quiseres Diogo, enquanto tratas do almoço eu poço ir cuidar dos animais.

Queres?

 

Sim!

Boa, dessa forma tudo é mais rápido.

Coloquei um avental, e comecei a fritar os riçóis, e a pôr a mesa.

Regressado da tarefa, já tudo estava pronto.

 

Que bom aspeto!

 

Eu gosto de cozinhar para os outros, fazê-lo só para mim acho uma seca.

 

Está muito bom.

 

Ainda bem.

No fim de semana, eu e a minha Mãe, vamos ver a roupa que já não me serve para te oferecer.

 

Obrigado Diogo.

Nem sei como agradecer tudo que os Padrinhos e tu, têem feito por mim.

Acredita, és o meu ídolo.

 

Eu?

Ídolo?

Achas, não quero ser ídolo de ninguém.

Quero, e fico muito feliz se fores melhor que eu.

É o que o meu Pai sempre me diz, quando lhe digo isso.

 

Eu sei, o Padrinho também já me respondeu da mesma forma.

 

Olha, hoje lanchamos todos aqui, Comprei bolos na vila.

Eu combinei com o André, ir-mos após o almoço dar uma volta de bike, tenho de ir chamar o Rafa e o Dani.

 

Pois, só que eu não poço ir.

 

Então Porquê?

As lágrimas, irromperam de uns olhos famintos por felicidade.

 

Tenho um pneu furado, além de achar, que aquele homem com o qual me obrigam a coabitar, mas que me nego a chamar Pai, já que não passa de ser um monstro e bêbado intratável, ele fechou-a com o cadeado.

 

Se foce só o furo, isso resolvia-se, eu tenho uma caixa de remendos, na garagem.

Tem calma Rodrigo, tens sido um verdadeiro campeão, de quem muito nos orgulhamos!

O processo do pedido da tua custódia, feito pelos meus Pais, está quase no fim, depois já ganho o irmão que não tenho, e partilhar esta casa contigo, vai-me dar uma enorme satisfação e alegria.

 

Nem imaginas o quanto anseio a chegada desse dia, o dia da minha felicidade, já não aguento mais Diogo.

 

Bom vamos fazer o ponto da situação da tua bike, e logo se vê.

De outra forma, arranja-se outro programa para estarmos juntos.

Esta é a minha filosofia de vida, com o meu grupo de amigos.

Um por todos.

E todos por um.

Só assim vejo o real sentido da amizade.

 

Diogo_Mar

quinta-feira, 12 de março de 2015

INTRODUÇÃO AO POEMA SILENTE



Foi na cidade da Guarda, que nasceu a 25 de maio de 1998 este jovem valor a imergir para o mundo da escrita.

Rodrigo Paredes.

O trilho da vida, levou a serpentear serras e vales, até chegar ao embalo, dos dias agrestes ou doces, no colo escarpado da imponente e altiva serra da estrela, vestida de granito e xisto a transpirar histórias seculares.

Foi adotado, por uma pequena freguesia Girabolhos, com 17,88  km² conselho de Seia, distrito da Guarda.

Pescava o olho às estrelas, jurando a si próprio, que uma havia de ser dele!

Foi quando os nossos caminhos se cruzaram, levando-me a descoberta deste lingote de ouro, por lapidar, com 13 anos, preso ao cordel de todos os sonhos.

Num ápice, constatei o seu real valor, de um adolescente arrevesado, as banalidades e futilidades, que infelizmente granjeiam os miúdos da sua idade.

Entre várias qualidades, destacam-se as de músico, executante de euphonium (Bombardino) bem como brilhante aluno, no seu percurso académico.

Fui conquistado pela sua escrita, assumindo-se um Pessoano, gosto do qual sou cúmplice.

Sublinho, tudo isto, com 13 anos.

Abri-lhe uma janela de oportunidade neste blog, onde de pronto ganhou os seus admiradores, mas eis que chega o momento, de deixar o Rodrigo, voar com as suas próprias asas.

As sementes estavam lançadas.

Plana num céu de humildade, matizado pela determinação e persistência, tendo por referência o caminho que lhe apontei, para mais facilmente flanquear e derrotar as adversidades a que estamos expostos.

Sim, porque só quando entregue às nossas sortes, conseguimos a maturação perfeita, para obter um fruto de excelência e solidamente maduro.

São os desafios da vida, para os quais temos de estar preparados.

Agora com 16 anos, lançou o seu primeiro livro, de outros que com certeza lhe seguirão, eu cá estarei, para os apadrinhar.

 

QUIS SABER DE MIM

 

Os interessados, em querer saber do Rodrigo Paredes, que eu recomendo vivamente, podem fazê-lo através da:

 

Bertrand online e pela wook online, ou através da editora Pastelaria Studios

 

Sinto-me orgulhoso, por ter ganho um grande amigo e descoberto tão talentoso rapaz.

Sem modéstias jacobinas, sei que o Rodrigo encerra nele, referencias minhas.

Faz parte da minha vida, dos tesouros que vou descobrindo.

Irá desbravar os caminhos do presente de olhos postos no futuro, tendo sempre como lema, o que persistentemente lhe incuti

Humildade, carater, personalidade e determinação.

Gostar sempre muito dele, de forma a cimentar os alicerces de um futuro promissor, até mesmo perante o desembainhar da espada das agruras do tempo.

 

Agora regressa a casa que o viu nascer para a escrita.

O blog PALAVRAS DO MAR, volta a poder contar com o seu filho Rodrigo Paredes.

Irei proceder à publicação de poemas que percorrem a estrada de uma tenra vivência, mas simbolizada pela arte maior da paixão pela escrita.

 

Obrigado Rodrigo

 

SILENTE

 

Quantas vezes fui fraco?

Quantas vezes tentei sair impune?

Revejo-me nos dias obscuros,

Na névoa matinal,

De um ritmo banal:

Uma história casual.

 

A carne é fraca,

Por entre a voz rouca,

Ergue-se a imensidão de uma alma,

Esta alma sombria,

Fria,

Tenebrante perante o incêndio,

Fogo que consome as réstias

De querer viver;

Não quero ter o teu perdão,

Fui vazado por uma bala,

Sinto-me no vácuo,

Inabalável pelo cansaço,

Pelo estilhaço de uma veia
Rebentada por uma palavra,

Coagulada por um verso.

 

Agarro nas chaves do carro,

Desejo deslizar no asfalto,

De que serve ter uma voz,

Se o orgulho fala mais alto?

Inverto a marcha,

Surge a paranóia,

Fico encurralado,

Ouço um disparo

E o vermelho domina.

 

RODRIGO PAREDES

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

VIVÊNCIAS



Aquele fim de tarde pardacento, foi acordado pelo troar das rodas de madeira do carro puxado por uma junta de bois, comandado pelo Sr. Bernardino, figura pitoresca proprietário de um longo e farfalhudo bigode, patilhas alongadas, de cigarro ao canto da boca, vestia uma samarra, a cabeça fazia-se proteger, por um chapéu de palha, de largas abas.

Parecia pregar o empedrado irregular, do caminho tosco e íngreme, onde morava a Zulmirinha leiteira.

Era como se marcasse a cadência de uma vida, retalhada nas mãos cristalizadas pelas agruras, de um destino, entregue as sortes dos deuses.

Ela, havia chegado da ordenha das vacas, para de seguida, dar corpo à tarefa de encher de leite, os canados de diferentes medidas das freguesas, que de véspera sempre lhe deixavam, era um ritual já costumeiro.

Devidamente alinhados e identificados, com marcas de cunho pessoal na pega, para fácil identificação, já que o analfabetismo, era praga dos tempos.

Em contrapasso, ouvia-se o troar do sino, que o vento, se encarregava de replicar, aos quatro cantos da aldeia a sua voz, convidando para a reza do terço.

 

Zulmirinha!

Está na hora do senhor!

 

Vamos.

Ó João, pensa os animais e tens o caldo com um naco de carne na panela, para comeres tu e o rapaz!

O pão, está no forno, ainda está quente cozi de tarde.

Ouviste!

 

Não sou surdo.

 

De aventais, e xailes desfraldados ao vento, lá iam as mulheres, de rostos encarquilhados pelas marcas da total entrega e dedicação ao amor do seio familiar.

Dos seus olhos, brotava um misto de amargura e docilidade.

Estas guerreiras, chamavam a si a árdua responsabilidade, da lida caseira, amanho da terra, tratar dos animais e ainda, tinham de inventar tempo para serem Mães, Avós e esposas.

Agora lá iam, levando nas mãos devotas o terço, fazendo preces e orações de proteção as suas famílias, e pedir abundância nas colheitas.

Os animais lá seguiam a sua marcha indiferentes aos olhares, por vezes reprobatórios, pelo cheiro nauseabundo, proveniente da bosta que deixavam para traz.

Limitavam-se a obedecer as ordens déspotas do seu dono.

 

Hei!

Anda boi!

Ou!

Quieto!

 

Arfavam em sinal de cansaço, do dia de trabalho que carregavam, regando a terra com o seu suor.

Pareciam fazerem a guarda de honra, ao serpentearem o velho casario da aldeia.

A canga, que transportavam ao pescoço, para se manterem emparelhados, era um colar de esforço, fruto de mais um dia de jorna.

Atribuíam-lhe outra função, era talhar uma maleita de nome trasorelho, que provocava um inchaço anormal do pescoço, com essa mesma canga.

Que o diga o neto da glória costureira o Augusto, que padeceu de tal enfermidade.

Os velhos de rostos encortiçados, pela mão do tempo implacável, não se faziam rogados a saudação, que familiariza aquela gente rude mas vestida de pureza e verdade.

 

Boa tarde Ti Bernardino!

 

Boa tarde!

 

Vai a janta?

 

Tem de ser!
A barriga toca a perna!

 

São os inequívocos trejeitos dos quais não abdicam.

Hospitalidade, solidariedade e palavra.

Tudo se resume à honra, virtude intocável por estas paragens.

Bebem na fonte dos dias a coragem e a determinação, de uma vida dura, fertilizada por suor e lágrimas, muitas vezes, lavradas pelo desespero.

Carregavam aos ombros, histórias e tradições feitas heranças do tempo, transformados em autênticos monumentos vivos.

São orgulhosas enciclopédias de sabedoria, pela experiência colhida ao longo dos anos, lecionados na universidade da vida, onde o mestre é o tempo.

 

 

DIOGO_MAR

sábado, 21 de fevereiro de 2015

GRITO



É na cálida noite, inundada por ventos mestiços, com o perfume a áfrica, que dou por mim, na encruzilhada de uma selva obscura, emparcelada na terra estéril do nada.

Sustento todos que de mim se servem, sobrando eu, transformado em restolho.

Ó chão entapetado pelas cinzas que rastejam sem norte.

Calcorreio, este penoso caminho, dos dias lúgubres vestidos de falsas ilusões, relegando-me, para um labirinto existencial.

Estou perdido.

Sufoco dentro do meu peito trucidado, o ser que não sou.

Digo sim ao não.

Digo não ao sim.

Resta-me ficar, confinado a uma ínfima partícula, da minha essência, nas estrias melancólicas da memória.

Adultero os atos e as palavras, imponho um garrote à vontade, hipoteco o presente, algemo o futuro.

No desfiar dos dias e anos, tudo mais longe e impessoal se torna.

Procuro-me nesta selva moribunda, onde não me encontro, transportado nas asas de uma monção, de Desejos e ambições.

Retrocedo no tempo ao encontro de momentos longínquos onde matei a cede de mim.

Metade loucura, metade racional, mas era eu!

O quanto anseio, por cobro a esta guerra fria, corrosiva e desesperante, num adiamento sem prazo.

Livro escrito pelo avesso, de enganos e mentiras, capítulo inacabado, história segredada de mim e para mim, rascunho sincopado, no esboço que só eu sei decifrar.

Sobra uma substância envenenada de crueldade, em erupção asfixiante e reprobatória, ostentando uma carapaça de valores, normas e regras padronizadas e acusatórias, onde a tradição bolorenta é a máscara dos imbecis.

Quem Ousa chamar-me de louco?

Despe a covardia, e logo encontrarás, um ser acorrentado as imposições, das doutrinas aglutinadoras.

Onde mora a felicidade?

Exausto, sinto-me uma amálgama a flanquear a saudade moribunda e órfã a perder-se, pelas ameias do desencanto.

 

DIOGO_MAR

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

LIXO INTELECTUAL



Para os arautos da sabedoria, e do conhecimento, aqueles que se acham os gladiadores da razão absoluta, venho mostrar o meu desdém por tão ignóbeis seres.

Opinam sobre tudo e todos.

Acham-se profundos conhecedores de todas as matérias, revelando ir reisadas aptidões circenses.

Diariamente, vou constatando a frustração ressabiada, que um pouco por todo o lado existe retratada, em tempo de antena falada e escrita, que lhes é concedida, para de forma aproada virem defecar lavercas avulsas e vazias, de tanta futilidade e banalidade.

É apanágio destes papagaios.

São evidentes pregadores de falsos moralismos, na repulsa por situações que esbarram nas limitações de conhecimento, e de aceitação pelo semelhante, na sua verdadeira plenitude.

Assentam os seus alicerces em demagogias baratas, e argumentos de algibeira.

Vestem pele de cordeiro, por sobre uma carcaça, podre e empedernida de preconceito.

Justificam-se com valores carunchosos e bacocos, chamando a isso tradições.

Depois acasalam-nas com a religião, coabitando no olimpo de falsos profetas, envergando um jacobinismo atroz.

Elevam-se, à categoria de mestres com retóricas bolorentas sustentadas em raízes de intransigência.

Justificam o seu pragmatismo, dizendo:

Se sempre foi assim, porque há de agora ser diferente?

Padecem de cegueira intelectual, com fome de protagonismo para se embriagarem em conceitos retrógrados onde definham de tanta ignorância.

Não podia deixar de estar em total acordo com Albert Einstein ao dizer que:

 

(A tradição é a personalidade dos imbecis.

Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito).

 

 

Diogo_Mar

sábado, 7 de fevereiro de 2015

O SIM E O NÃO



Há uns anos a esta parte, o não, foi infelizmente quase banido dos moldes educacionais das nossas crianças e jovens.

O facilitismo exacerbado, agregado a libertinagem confundida com liberdade, que lhes foi concedida, pelos seus progenitores, desembocou neste labirinto anarca e pantanoso onde se encontram.

Os filhos, deixaram-se de educar, passando a serem comprados.

Tudo se circunscreve a um materialismo doentio.

Mas afinal vamos lá saber qual é a importância do não.

Pois bem:

O sim, ou o não, são traves mestras na educação do individuo.

Todas as afirmações sejam elas positivas, ou negativas, devem ser bem fundamentadas, para servirem de aprendizagem e de estímulo.

Respostas de, não porque não, ou sim, porque sim, revestem-se de um carater evasivo e de ambiguidade, semeando relutância em as aceitar.

O não tem um efeito tão pedagógico como o sim.

Esta ultima, deve servir de estímulo e responsabilização, para um voto de confiança que encerra.

Quanto ao não, deve ser interpretado como penalização ou constrangimento a algo, mas transmitir sempre de forma implícita a mensagem de alavancamento para a correção e merecimento.

Ambas as afirmações, fazem parte de um processo de amadurecimento, e são um veículo de amor.

O não contundente, ou sim categórico, nunca deve ser ziguezagueante, para nunca abrir um precedente grave, que é a dualidade de critérios que em circunstância alguma abona em favor de padrões de educação sólidos e justos.

Agora digo-vos sim, volto um destes dias.

Quanto ao não, fico por aqui para o post não ficar muito extenso.

De acordo?

Sim, ou não?

 

DIOGO_MAR