domingo, 25 de janeiro de 2015

MESTRA



O teu sorriso é a fragância pura da felicidade.

Eu, discípulo imundo, possuído pelos vícios da maldade.

 

Tu, afagas a vida com mãos de mestria

Eu, vegeto petrificando a alegria.

 

Tu, paixão inusitada de fervor

Eu, rastejo na terra envenenando-a com a minha dor.

 

Tu, encerras um mundo de esperança

Eu, mergulhado no calvário da relutância.

 

Tu, desnudas-te num verdadeiro altruísmo

Eu, empunho a bandeira do egoísmo.

 

Agora sou eu que te imploro uma oportunidade

Tu, afagas-me com um olhar de piedade.

 

Eu, suplico-te, só uma vez

Tu, confortas-me despojada de qualquer altivez.

 

Eu, sou um mero aprendiz a quem deste grandes lições

Agora fundidos

Imergimos num oceano de emoções.

 

Tu, és o meu talismã de humildade

Eu, aprendi a ser um homem de verdade!

 

 

DIOGO_MAR

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

TANTO POR NADA



Percorro o caminho que serpenteia o teu corpo.

Abraço o inatingível, com a ânsia de viver, com a fome de te desejar.

Estou sedento, sinto-me morto.

 

Esmagas o meu desejo, numa indiferença atroz,

Embargas a minha vida

Silencias a minha voz.

 

É na gélida soleira do tempo, onde pouso a cabeça de um corpo inerte que jaz sobre a terra

Lanço um grito lancinante, de uma alma em busca de paz e a quem tu brindas com guerra.

 

Altivez cruel cega e raivosa

Entapetaste o caminho de espinhos, desta mão que te oferendou uma rosa.

 

Cama de chão, lençóis feitos de vento

Travesseiro de solidão

Confidente do murmúrio deste meu lamento.

 

Rosto lavado em lágrimas

De uma ausência crucificadora

Sonho desalentado

Na penumbra demolidora.

 

As tuas memórias, despertam em mim a primavera

Deste inverno taciturno

Dá guarida, ao meu amor mendigo, no teu paraíso de mundo.

 

Restitui-me a luz do dia

Nesta alegoria de desespero

A razão da minha existência

Tornou-se num pesadelo.

 

DIOGO_MAR

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O JOELHO DA SOLIDARIEDADE HISTÓRIA_12



Aquela manhã a aldeia despertou, sob um denso manto de neve.

Da janela de sacada do meu quarto, gozava de uma paisagem de privilégio, já que a casa da minha Avó, fica inserida numa quinta sobranceira ao povoado.

De pantufas, pijama e com a minha mantinha por sobre os ombros, com a casa confortavelmente aquecida, aquela janela, era a fronteira que delimitava o aconchego, do agreste.

Eu, já sabia, que os invernos por estas paragens são rigorosos, os velhos, dizem que é bom presságio que assim seja.

A sabedoria do grupo que frequenta o largo da aldeia, num jogo de sueca, ou na taberna do Sr. António, diz que a neve trata da terra mata a bicharada, tornando o solo mais fértil para as sementeiras.

Eles, bem que sabiam interpretar o livro da vida, onde o tempo é o mestre.

Estava rendido a tão belo fenómeno.

Eis que ecoa nos meus ouvidos a voz doce e terna da minha avó.

 

Diogo, vem tomar o pequeno-almoço.

 

Soltei mais um bocejo retardatário.

 

Sim Avó, já desço!

O frio que está lá fora, transmitia-me uma vontade acrescida de preguiçar, e quanto mais junto da lareira melhor.

Como eu dizia muitas vezes fazer vida de gato, deitado no escano, a ler um livro, a compasso do crepitar da lenha.

Chegado à mesa, lá me esperava o que eu apelidava de manjar do marquês.

De resto, não sei porquê, os netos estão sempre magros aos olhos dos Avós!

Pão, marmelada, compotas variadas, confecionadas pelas suas mãos ternurentas, cheias de mundo.

Mas não ficava por aqui.

Torradas queijo, fiambre presunto e até por vezes ovos mexidos.

Tudo isto acompanhado por leite e café feito numa grande cafeteira com água onde se dissolvia o pó do café.

Por isso batizei-o, por café da Avó.

Era delicioso.

O quanto era agradável sentir as minhas narinas, inundadas por tão reconfortante cheirinho.

Ela repetia a frase:

 

Vá come Diogo, tens de ficar forte.

Come o que quiseres.

 

Eu sei Avó, obrigado.

Era tratado de forma principesca.

Nada podia faltar ao neto.

Por tudo isto os meus Pais, gracejavam dizendo:

 

A tua Avó estraga-te com mimos!

 

Já com o estômago devidamente aconchegado, fui ter com os meus amigos da aldeia, sem antes ouvir os concelhos que me dava.

Agasalha-te!

Faz atenção com os locais para onde vais brincar!

Diogo, quando ouvires o relógio da torre da igreja dar as badaladas do meio-dia, chega-te para casa.

 

Sim Avó.

Despedi-me dela, com um abraço e o beijinho que tanto gosta e merece.

Era muito bonita, tinha um olhar doce e terno, uma ou outra impressão digital, que o tempo havia gravado, no seu lindo rosto em forma de ruga.

Lá fui a conquista dos montes e vales, ao encontro dos meus amigos.

Embora tivesse bicicleta, o piso estava com gelo, e neve que inviabilizava a sua utilização.

Logo ouvi chamar por mim.

 

Diogo!

 

Veio o Rui, esbaforido ao meu encontro.

Anda estamos no adro da igreja a jogar futebol.

 

Bora lá vamos para ver se aqueço.

 

Hoje está mesmo muito frio, não está Diogo?

 

Mesmo!

Já quase junto do grupo escorrego numa placa de gelo, embatendo com o joelho esquerdo numa pedra, estatelando-me ao cumprido sobre aquela coisa tão fria.

Soltou-se uma gargalhada em uníssono.

 

Então Diogo?

Já não te seguras de pé?

 

Dizia outro:

 

O que bebeste ao pequeno-almoço pa?

 

Esbocei um sorriso, misturado com uma máscara de dor.

O Rui ajudou-me a levantar.

Caminhei para junto deles, mas logo me sentei.

As dores tornavam-se mais intensas.

 

Então Diogo, não jogas?

 

Não, o joelho está a doer-me bastante.

Subi a perna esquerda da calça, e deparei-me com um cenário que me assustou.

O joelho havia enxado de forma galopante.

Foi então que eles se aperceberam da gravidade da minha situação.

 

Ei, Diogo, é melhor chamar uma ambulância.

 

Todos procuravam uma forma de me ajudar.

Eu uma certeza tinha, não conseguiria chegar a casa pelo meu pé.

E a minha Avó como ia ficar!

Foi então que o Rui tomou o comando das operações.

 

Vá, em vez de estarmos aqui a lamentar vamos levar o Diogo para casa.

Eu vou do teu lado esquerdo põe o braço por sobre os meus ombros e dessa forma já não apoias o pé no chão.

 

Rui, espera, eu vou ver se o meu Pai, ainda não saiu, ele leva de carro o Diogo, disse o Jorge.

 

Ok, vai rápido!

 

As dores eram intensas, eu tentava suster as lágrimas.

Era confortado por todos.

 

Tem calma Diogo, vais ver que não é nada de grave.

 

Eis que se ouve o barulho do motor de um carro.

Era o Pai do Jorge.

 

Então rapaz, o que te aconteceu?

 

Escorreguei no gelo, bati com o joelho numa pedra e não consigo andar.

As lágrimas já irrompiam.

 

Mostra lá.

Eilá!

Isto está feio!

Melhor é irmos diretamente ao hospital.

 

Não por favor não.

Quero a minha Avó.

Leve-me até ela se faz favor.

 

Claro que sim, mas se ela achar por bem levo-te de seguida ao hospital.

 

E o Sr. João o endireita?

 

Questionou o Rui.

 

Não acha uma boa ideia Sr. Henrique?

 

Olha, agora é que falaste acertado Rui.

Vamos diretos lá, pode ser que ele nos diga o que será melhor fazer.

Queres Diogo?

 

Sim quero.

 

Vá eu ajudo-te.

 

Pegou em mim meteu-me no banco traseiro.

 

Só pode vir um comigo.

 

Não te importas que eu vá com o teu Pai Jorge?

 

Claro que não Rui!

 

Vamos lá rápido.

 

Chegados a casa do Sr. João, ele estava a tratar dos animais, a esposa foi chamá-lo, era uma casa de lavoura, mas muito asseada.

 

Então Henrique, o que te traz por cá?

 

Desculpe vir chateá-lo trago-lhe o neto da dona Rita.

 

Que Rita?

 

Da quinta dos Sonhos.

 

A da serra?

 

Sim essa mesmo.

 

Senta aqui neste banco, como te chamas?

 

Diogo.

 

O que te aconteceu?

 

Escorreguei numa placa de gelo, e embati com o joelho numa pedra, dói-me muito.

 

Tira essa perna para fora das calças.

 

Ora deixa la ver.

 

Chi!

Isto está muito enxado!

Eu vou mexer, vais ter que ser forte, ok?

 

Sim.

Segurei com força a mão do Rui.

Podes apertar Diogo, força!

Amordacei o grito de dor, as lágrimas rolavam em fio.

Senti-me desfalecer.

Lembro-me de ser amparado pelo Rui, e pelo Sr. Enrique.

Depois, acordei deitado numa cama, ao som da cadência do tique taque de um relógio de cabeceira.

 

Então, já estás melhor?

 

Sim, eu desmaiei não foi?

 

Exatamente Diogo.

 

Bebe este copo de água com açúcar.

 

Desculpem, só estou a dar trabalho.

Olhei as horas no velho relógio, 12 e 30.

Tenho de ir, a minha Avó, já deve estar a ficar preocupada, ela recomendou-me que fosse para casa, pós as badaladas do meio-dia.

 

Tem calma Diogo, atua Avó já sabe o que aconteceu, e que estas aqui.

 

Meu deus Rui, deve estar muito preocupada. Quero ir para junto dela.

 

Já vamos, só estávamos a espera que ficasses melhor.

 

Obrigado Sr. Enrique, e Sr. João.

Não vai ser necessário ir ao hospital pois não?

 

Não Diogo.

 

Mas não vais poder exercer preção sobre a perna durante 10 dias.

Vais ter de estar em repouso.

Fizeste um traumatismo violento, que desenvolveu um processo inflamatório agudo.

Mas nada de grave.

 

Estava com joelho envolto numa ligadura, e com menos dores.

 

O Sr. João, era o massagista da equipa de futebol la da terra.

Dizem que tem mãos milagrosas.

 

Vais esfregar 3 vezes ao dia esta pomada, feita por mim, com ervas medicinais e tem que se comprar na farmácia este antinflamatório.

 

Ok Sr. João, eu desde já lhe agradeço muito, e depois a minha Avó faz contas com o Sr.

 

Deixa lá isso rapaz, o importante é que fiques bom, e eu um destes dias passo lá para te fazer uma visita.

 

Com todo o gosto!

Chegado a casa fui ajudado por todos os meus amigos, que me esperavam na sala.

Abracei a minha Avó, e confortei-a.

Já estou melhor Avó, já passou o susto.

Tenho fome!

Ri, para desanuviar o clima.

 

Meu Deus Diogo!

Os teus Pais o que vão dizer!

 

Dona Rita, aconteceu ao Diogo, como podia acontecer a um de nós.

 

Avó, tu sabes que eles vão compreender!

 

Henrique, obrigado, e quanto lhe devo?

 

Ora essa dona Rita, não deve nada, só falta ir comprar um antinflamatório, eu de tarde tenho de me deslocar a vila, e poço trazer.

 

Faça-me esse favor.

Já lhe dou o dinheiro e desculpe toda esta trabalheira.

 

O importante, são as rápidas melhoras do Diogo.

 

Obrigado Rui, e a todos claro.

 

Obrigado por quê dona Rita.

Até parece que não conhece os hábitos da nossa aldeia.

Um por todos, e todos por um.

 

Quero agradecer-vos, em me terem dado esta grande prova de amizade.

 

Está bem Diogo, agora, o importante é ficares bom, e não esqueças, repouso.

 

Bom vamos andando.

 

Depois do almoço venham até cá.

Jogamos monopólio, e batalha naval!

 

Ok, combinado!

 

Fixe, assim tenho-vos junto de mim, e os dias tornam-se mais agradáveis.

 

Eu vou buscar a casa uma canadiana esquerda para te trazer.

Tenho lá um par, quando o meu irmão teve o acidente de mota.

 

Ok Rui obrigado.

 

Vai e avisa a tua Mãe que almoças aqui.

 

Está bem dona Rita, obrigado, venho já!

 

O Rui, era como um neto para ela, tinha acompanhado muito de perto o seu crescimento, criando fortes laços, já que a Mãe granjeava, as terras na quinta dos meus Avós.

Estava a ter mais uma grande e inequívoca prova, da solidariedade que impera nas gentes daquela aldeia.

Agora já estava mais confortável, sob a guarda, carinho e amor da minha Avó e da grande amizade e solidariedade, dos meus amigos, destacando o Rui, que sempre foi o meu eleito.

O Ruca para os amigos!

 

 

DIOGO_MAR

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

GRITO DE SILÊNCIO



Embalo os dias vazios, num olhar melancólico, vestido de abandono a percorrer o teu retrato, emoldurado pela mão carrasca e impiedosa da saudade.

Ó, tempo longínquo a perder de idade.

 

Peito desventrado, pela força implacável e incandescente da ausência.

Lagrimas derramadas num chão de sofrimento.

Coração peregrino a pulsar evocando esse momento.

 

Fogueira de gelo, petrificada pela cristalização dos dias

Arranco ao peito o grito exuberante, mas amordaçado do beijo que me pedias.

 

Recorto as palavras com o bisturi da paixão

Naufrago na terra do desencanto, prostrado por sobre a laje da solidão.

 

Dispo-te, no olhar fecundado de um amor que partiu

Correnteza da amargura asfixiante, das margens do desespero que me pariu.

 

És a luz das trevas que ilumina o meu ser

És a mágica noite de êxtase infinita, sem amanhecer.

 

Não,

Não corras mais meu coração louco

Não podes agarrar a vida já passada

Deambulo feito pássaro perdido, escabeceando nesta vida de langor e desabrigada.

 

O meu peito, explode em fogo de napalm

Jorrado na lama do sofrimento sangram as cicatrizes da alma

Por favor enlaça-me na tua âncora de abrigo, no teu abraço de mundo

Imploro-te!

Vem!

Sacia-me a fome!

 

 

DIOGO_MAR

sábado, 3 de janeiro de 2015

VIVÊNCIAS DA MINHA ALDEIA HISTÓRIA_11



 
Estava eu pelos meus 14 anos, idade essa que se permite ter todos os sonhos e fantasias.

Depois crescemos, e constatamos que não é bem como nós alicerçamos os nossos projetos.
Como de um quadro se tratasse, que pintávamos com tons vivos e coloridos, mas com o decorrer do tempo, ia adquirindo alguns sombreados.
Eram as fintas e rasteiras da nossa vivência.
Processo por vezes doloroso, mas que nos faz amadurecer.
estávamos na fasquia entre os 12 e os 15 anos.
Ou seja: os mais novos do grupo eram o Rodrigo e o Daniel
Pelo meio estava eu e o André
O mais velho era o Rafael.
Olhando a proximidade das nossas idades, padecíamos dos mesmos problemas e ânsias, da adolescência.
Acalentávamos um futuro desenhado e projetado por nós.
Que idade tão bonita.
Idade de saborear todas as travessuras, e sentirmo-nos os verdadeiros campeões os donos do mundo.
Tempo das primeiras namoradas, dos amores inocentes, como se de um filme se tratasse, onde desempenhávamos o papel de atores principais.
Ainda não se tinham banalizado, princípios morais e éticos.
Os patamares da vida tinham outro encanto.
A par de tudo isto, os nossos Pais iam-nos incutindo o sentido de responsabilidade, através das tarefas pelas quais nos incumbiam.

Felizmente que não éramos embriagados pelo facilitismo irresponsável agora reinante.

Claro está que os padrões de educação eram algo diferentes, os melhores que os nossos progenitores achavam para nós.
Como pássaros livres, nós também vivíamos em perfeita harmonia com a natureza.
Sabíamos respeitá-la, mesmo porque tínhamos a consciência que dela dependíamos.
O amanho da terra, as sementeiras, as colheitas o cuidar dos animais.
Tudo isto eram tarefas às quais dedicávamos parte do nosso tempo.
Era um orgulho ver os campos asseados, eram os jardins da nossa aldeia.
Os animais bem tratados, transpirando saúde.
Eles a seu tempo iam entrar na nossa cadeia alimentar.
A lei justa da sobrevivência.
Embora eu tivesse alguma relutância quanto a isso, já que havia animais pelos cuais ganhava afeição.
E não aceitava muito bem a sua morte.
Principalmente os coelhos.
Isto já não se aplicava aos perus e as galinhas, que achava animais estúpidos e pasmacentos.
Sempre que se procedia à morte de animais lá em casa, ou na aldeia eu nunca ia assistir.
Os meus Pais respeitavam essa minha vontade, e nunca me forçavam a ver tal tarefa.
Os meus amigos gozavam comigo, e com o André que partilhava da mesma atitude.
Por alturas da matança do porco, a família do Rafael convidava-nos para esse ritual.


Então Diogo, não vens?


Espicaçava-me ele, num tom provocatório, sabendo da minha resposta.
Olha Rafa, vai dar uma volta, bem sabes que não.


Pois, mas depois gostas de comer os rojões! Lol.


Mas logo se apressou a dizer:


Estou na brincadeira contigo Diogo.
Nós sabemos bem que tu e o André não gostam de ver matar.


Não fosse eu levar aquele comentário asseriu, e rejeitar o convite.


Depois vão lá ter para o almoço ok?


Sim, depois eu e o André vamos la ter.
Rafael: Poço convidar o Rodrigo?


Sim, claro que sim, a questão é que o Pai dele deixe.


Sendo a pedido do meu Pai, ele não se atreve a negar.
O Armando era um personagem bastante problemático, já contava no seu curriculum com uma passagem pela cadeia.

O Rodrigo era afilhado dos meus Pais, pessoas a quem o Armando respeitava e temia.
Já que o meu Pai o reprendia pelos maus tratos que infligia à família.
Não admitia essa postura animalesca da parte do Pai do Rodrigo.

Pairava no horizonte a possibilidade dos meus Pais, requererem a guarda dele fazendo valer a posição de Padrinhos.
Situação que me agradava imenso, já que ganhava o irmão que não tinha.
O Armando, não nutria grande simpatia por mim, porque eu o afrontava, em defesa Do Rodrigo.
As suas ideias ditatoriais passavam-me ao lado, eu sabia rebatê-las.
Não tardou, e os gritos lancinantes do suíno ecoavam pela aldeia.
Eu punha o som da música mais alto para abafar aquele estridente ruido.
Depois dessa fase traumática para mim, já podia por pés ao caminho para ir chamar o Rodrigo.
Acompanhado pelo André lá fomos enfrentar aquela figura austera e rude que era o Armando.


O que querem?


Primeiro, bom dia.
Fica bem dizer-se.
Segundo, venho chamar o Rodrigo para ir almoçar connosco a casa do Rafael, estão lá todos, e os meus Pais fazem gosto que ele vá.


De forma grosseira, lá chamou o filho.
O Rodrigo acercou-se do portão.


Vais, mas não te quero aqui tarde.
Estás a ouvir pá?


Também não vamos comer apressadamente para ele vir para casa, é falta de educação sair da mesa antes que todos acabem de almoçar.
Bem como, não se vai a casa de ninguém só para comer e logo sair.
São regras de boa educação que os meus Pais me ensinaram, e claro está, também querem que o afilhado tenha.
Certo?

 

Isto não pode ser assim Diogo.


Bom, isso é um assunto que você deve falar com o meu Pai.
Ele enquanto está na nossa companhia está bem, ao contrário daquilo que você acha.
Há, e está feliz.
O Rodrigo tal como eu e todos, tem direito a felicidade.
Não acha?


Bom, vamos ficar por aqui, respondeu o Pai do Rodri já com um semblante carregado.


Senti que tinha vontade de descarregar a sua fúria em cima de mim, mas nem se atrevia a tal.
O Rodrigo, dava-me toques, em sinal para eu me calar, tendo receio, que eu ao entrar em despique com o Pai, hipotecasse a ida dele ao almoço.
Mas eu, que sempre fui e sou de fortes convicções, não me deixava amedrontar, pelo tom ríspido e intimidatório do Armando.
Para mim, antes quebrar que torcer.
Com a minha razão ninguém me cala.
Dobramos a esquina da rua, e o Rodrigo logo esboçou um sorriso que lhe inundou o rosto, contrastando com o azulado dos seus olhos.
Parecia ter ganho um uma nova vida.
Era sempre assim, quando eu o arrancava de casa.


Obrigado Diogo, só tu para me libertares.


Para mim, não há nada que pague a felicidade de alguém de que gostamos muito.
Era esse o caso, o Rodri era um irmão.
Agora já em casa do Rafa, com um forte cheiro a rojões e a sarrabulho, e com toda aquela gente, vivia-se um ambiente de alegria pura, e contagiante.
Deram-nos as boas vindas, e ficaram felizes ao verem o Rodrigo.


Ó meu amor, tu vieste!

Que bom!

 

Arrancou um enorme beijo da Zulmirinha e da minha Mãe e Madrinha, que ele adora.

O Avô do André, levou um acordeão, o meu Pai pegou no cavaquinho, o Pai do Rafael nos ferrinhos.
Estava montado o cenário para uma tarde de convívio, que cada escalão etário aproveitava da melhor forma.
Foi festa rija até a noite.
Bem a moda do Alto-Douro.

 

 

DIOGO_MAR

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

APRESENTO-VOS O MEU ANO NOVO



Cabelos de sabedoria.

Olhos de bondade e esperança.

Boca de verdade e justiça.

Braços de união e alegria.

Mãos de carinho e solidariedade.

Tronco de amor e felicidade.

Passos persistentes e determinados.

 

Este é o meu ano novo!

 

Para os que estão atentos, ao que escrevo aqui neste blog, pautado por linhas transversais e abrangentes, sim porque a vida, não é só feita, de lirismos bacocos e muito menos, de lamechices a caírem de podres, de tanta futilidade e banalidade.

O PALAVRAS DO MAR é uma extensão de mim, logo o que aqui escrevo em prosa ou poesia, são o espelho do meu ego.

Dessa forma, desfio uma Narrativa, ora mais rendilhada, ora mais simples, já que tenho facilidade de flanquear essas vertentes.

A minha escrita, não tem idade, faço de tudo e sobre tudo e para todos, não sou seu prisioneiro!

Daí, a maresia das palavras bonançosas, ou agrestes são incondicionalmente minhas.

Não presto subserviência as visualizações, nem mendigo visitas ao meu blog, na minha casa, fica quem se sentir bem, de outra forma, gentilmente fica o convite para sair.

Irei fazer uma triagem, dos blogs que sigo, procedendo a eliminação de todos aqueles que só estão aqui a fazer monte.

Nunca a quantidade, foi ou é, sinónimo de qualidade, ficam os que eu achar por bem.

Em 3 anos de blogosfera, estou longe de saber tudo, mas já deu para ver, os tiques hipócritas e jacobinos de muita gente, que por aqui anda.

Entristece-me constatar a falta de atitude, retratando-se como virgens ofendidas, por não haver uma retribuição sistemática aos seus blogs.

Sei que muitas vezes não ejaculo palavras macias, mas como a minha postura na vida nunca foi nem será agradar aos outros, repouso sobre a tranquilidade da minha consciência.

Irredutivelmente, serei sempre igual a mim próprio!

Ou se quiseres:

Não gostas, põem na beira do prato, ou desampara a loja!

 

Um próspero 2015!

 

 

DIOGO_MAR

sábado, 27 de dezembro de 2014

RETRATOS DA MINHA ALDEIA HISTÓRIA_10


 
Estávamos pela última semana de Dezembro, já reinava o inverno.

O frio apertava, tendo como aliado um vento agreste, que nos castigava as mãos e a cara.

Senário perfeitamente normal para a época nesta pequena aldeia do douro vinhateiro.

Encaminhei-me, até ao largo da minha aldeia, ponto de encontro de gerações.

Os mais velhos, jogavam cartas numa mesa que eles próprios improvisaram e estrategicamente montaram de fronte a tasca do Claudino, um ferroviário reformado, que encontrou os anos sabáticos nesta aldeia, onde tem as suas raízes e por entre copos de vinho e petiscos que a Glória, sua esposa confeciona de maneira exímia a estimular para mais uma caneca.

Batiam com as falanges dos dedos no tampo em sinal de convicção na jogada.

Dizia o Luís cocho:

Que havia perdido a parte inferior da perna direita num acidente de mota.

 

Eu corto:

Essa é minha!

 

Nem querias mais nada! Retorquiu-lhe o Sr. Bernardino, com voz firme.

Eu recorto!

Não esperavas esta, pois não?

AhAhAh!

 

Aqueles personagens de chapéus de aba larga e rostos encarquilhados pelas marcas do tempo, são monumentos vivos de sabedoria.

Alguns tinham laços familiares aos meus amigos.

Caso do Sr. João Fonseca, avô do André. Um bom homem.

Jogavam de forma tão envolvente, que nem davam pela nossa presença, ou estariam a ignorar-nos!

Por vezes, não havia um relacionamento muito cordial, porque tínhamos alguma dificuldade em os compreender, bem como eles a nós.

Coisas do foço do tempo.

Embora reconheça, que a nossa irreverência por vezes era extravasada por alguns excessos.

Mas no fundo, eles gostavam muito de nós.

Viam em nós a sua própria continuidade, embora com diferenças bastante acentuadas, épocas e mentalidades substancialmente diferentes.

O tal modernismo que eles criticavam, e que tinham alguma dificuldade em compreender.

Estávamos a romper com as enraizadas tradições.

Os nossos cortes de cabelo mais arrojados e os penteados, moldados com gel, fazendo por vezes colagens aos nossos ídolos do futebol, arrancava-lhes sorrisos.

Enquanto sacudiam o pó das cartas, tal como diziam, uns metros a frente, nós puxamos do bolso pelos nossos berlindes coloridos e de vários tamanhos e posemos em prática o afinco no jogo.

Organizávamos campeonatos.

Para o campeão, era uma garrafa de litro de Gasosa, também conhecida por Pirolito e três Donuts.

Rapidamente o largo da aldeia, tornava-se palco de convívio entre gerações distintas, mas de carater e personalidade bem vincada, emprestando-lhe um contraste muito agradável de ver.

Agora as nossas vozes misturavam-se com as dos velhos.

Só na linguagem vernácula, que por vezes se ouvia, éramos iguais.

Mais adiante, as raparigas também davam largas a brincadeira.

Saltavam a corda, jogavam a macaca e ao jogo do lenço.

O nosso grupo, estava reduzido, já que o Daniel tinha ido passar o Natal a aldeia dos avós paternos.

Fiquei eu o Rafa o André e o Rodrigo.

A entrega ao jogo era tal, que por vezes levava-nos a ter despiques um pouco acesos.

O Rafa, tornava-se obcecado pela vitória, tinha mau perder.

Mal sabíamos, que a vida se iria encarregar de nos dar tantas vezes o trago amargo da derrota.

Era uma tarde como tantas outras, em altura de férias escolares.

A aldeia, adquiria a vida que lhe faltava nos dias em que estamos em aulas.

Ao longe via-se a magistral torre da igreja, com o seu imponente sino.

Tínhamos feito uma venda de rifas, tendo como objetivo, angariar dinheiro para o seu restauro.

Era um verdadeiro talismã da aldeia.

A estreita e íngreme ruela em paralelo desgastado pela erosão da história, serpenteia o velho casario aos ombros dos vinhedos, até chegar ao adro da igreja, emprestando à paisagem, um quadro profundamente nostálgico e bucólico, muito nosso.

O Sr. Jorge que tinha uma loja de eletrodomésticos na vila, ofereceu uma televisão para o primeiro prémio.

O Sr. António da mercearia deu um Presunto para o segundo prémio.

E a dona Georgina ofereceu do seu minimercado concorrente direto do Sr. António o terceiro prémio.

Um bacalhau e uma garrafa de azeite, e uma de vinho.

A tarefa até que não correu mal.

Vendemos na escola, aos professores e contínuos e na vila no dia de feira.

Aproveitamos a forte presença de muitos imigrantes, que vieram passar a quadra natalícia, para dessa forma darem um forte impulso, a realização das obras.

Agora já as nossas vozes tomavam conta do largo da aldeia, ecoando levadas pelo vento agreste, que varria aquelas paragens.

Era um belo momento de ócio que todas as idades estavam a disfrutar.

Matar o tempo?

Antes que ele nos mate a nós!

Para não fugir da regra, eu e o Rafael, entramos em diálogo aceso, pelo motivo da batota que estava a fazer.

Os meus Pais, sempre me ensinaram a saber ser vencedor, mas também assumir a derrota.

Entre algumas palavras mais ásperas e insinuações, por parte do Rafa, eis que o Rodrigo, toma a minha defesa.

Eu não queria isso, já que sabia do ciúme que ia despoletar junto do Rafael.

Ele como mais velho, não tinha problema, em bater ao Ródri, tendo eu que moderar as partes.

Nunca lhe admitia tal atitude.

O Rodrigo, gozava de um estatuto muito especial, era o Irmão que eu não tinha, além de ser afilhado dos meus Pais.

Embora reconhecesse, que todos nutriam por mim uma grande e forte amizade, sentia-me o elemento mais consensual, o elo mais forte.

Vá! Parem lá com isso gritei eu, em tão firme.

 

Esse palhaço arma-se e um destes dias, não vais ter Diogo que te valha.

Vou-te partir essa boca toda.

 

Disse o Rafa.

O Ródri, com os seus 11 anos, carregava uma enorme revolta, pela vivência familiar que herdara.

Só eu o conseguia persuadir, das atitudes intempestivas que por vezes adotava.

Olhei-o fixamente nos olhos e ele soube exatamente ler o que lhe pedia.

Remeteu-se ao silêncio, sabendo que dessa forma iria resfriar os ânimos.

 

Quando quiseres alguma coisa, vem ter comigo sozinho.

Acrescentou o Rafa, tentando provocar o Rodri, ganhando um pretexto, para um confronto físico.

 

Então, tive eu que tomar as rédeas do conflito.

Queres parar com isso Rafael?

Tu não tens nada que oferecer porrada ao Rodrigo.

Primeiro és mais velho 3 anos que ele.

Segundo, no dia em que lhe puseres a mão, vais ter que te haver comigo.

Eu tento ser justo. Lembra-te que és mais velho, mas eu não te tenho medo.

O André, já cansado daquele diálogo, disse:

 

Parem lá com isso.

Já chega, não acham?

Até parece, que não somos amigos, e que não partilhamos os bons e maus momentos de todos.

Vá, parem.

 

Foi uma atitude plena de sensatez e uma grande e incontornável lição.

Afinal somos todos amigos.

Sem darmos por isso, já a tarde tinha empalidecido e o sol já pouco ou nada aquecia.

Na torre da igreja, caíam as cinco horas.

Os galos e garnisés da Zulmirinha faziam coro com as badaladas, sinal que estava na hora de nos recolhermos.

Ainda tinha que ir dar alimento aos animais.

Galinhas, Coelhos e os perus, que estava ansioso por os ver no forno, porque são maus, já me tinham infligido alguns ataques nos braços e mãos.

Levantei-me e disse-lhes:

Bom, está no ir!

São horas.

Vou lanchar e tratar da bicharada, para quando os meus pais chegarem, estar tudo em ordem, tal como me recomendaram.

Gosto de cumprir com as minhas obrigações.

Hoje ganhaste Rafa, parabéns.

Mas tem lá calma, ainda faltam jogos!

 

Sim, eu sei Diogo.

Ainda faltam jogos para tu perderes, AHAHAH!

 

Ou não, murmurou o Rodrigo.

 

O Rafael, olhou-o de maneira fulminante, levantando-lhe a mão, para concretizar os seus intentos.

Mas rapidamente coloquei cobro as intenções dele.

Segurei-lhe o braço com firmeza e olhos nos olhos disse-lhe:

Ou paras de uma vez por todas com esse teu espirito agressivo, ou então deixas de ser meu amigo hoje aqui e agora.

Entendeste Rafael?

Entendeste mesmo?

Não vou voltar a repetir o que acabei de te dizer.

 

Isto é uma vergonha! Disse o André, que partilhava em muito a minha maneira de pensar e agir, além de fisicamente sermos tão parecidos, que diziam sermos irmãos gémeos.

Fazíamos uma diferença só de duas semanas de idade, estávamos pelos 13 anos.

 

Diogo, Mas ele?

 

Ele, tem nome. Chama-se Rodrigo.

Vive na mesma aldeia que tu, anda na mesma escola que tu e faz parte do nosso grupo de amigos.

Entendes?

Chau Rafa, fica bem.

Virei-lhe costas, sem o cumprimentar.

Foi para o fazer sentir, que estava magoado.

Mas pelo canto do olho, vi a expressão de arrependimento, que tinha no seu olhar.

O Rafa, como qualquer outro do meu grupo, tinha pavor de perder a minha confiança e naturalmente a minha amizade.

Convidei o André e o Rodrigo a virem lanchar a minha casa.

O André não quis já que tinha algumas tarefas para executar.

O Ródri, negou o meu convite de forma nada convincente, senti que ele estava com vontade de vir.

Bom André, até mais logo.

 

Até, Diogo e Rodrigo, chau.

 

Ródri, vá, anda lá a minha casa lanchar.

Os olhos dele, ficaram ainda mais azuis, e surrio.

 

Poço ir mesmo?

 

Claro que sim, de outra forma não tinha feito o convite.

 

Bom, Bora lá.

 

Dirigimo-nos para minha casa, onde no jardim, já estava o Dique a nossa espera.

Latia e estava com orelhas afitadas, a sua longa cauda agitava-se num movimento frenético, em sinal de satisfação e alegria por me ver de volta.

Ele nutria uma grande empatia pelo Ródri, já que era, uma visita assídua da minha casa.

Aliás, assim como todos do nosso grupo.

Por isso, não tinha qualquer preocupação, com o relacionamento do Dique com os meus amigos.

Ele sabia da nossa amizade e era muito cordial e simpático.

Era um cão bastante corpulento e forte, raçado de Lobo da Alsácia, de olhos azulados, pelo acinzentado com umas orelhas grandes e uma longa cauda, muito bonito e inteligente.

Claro está, que tive de proferir algumas palavras de ordem, para evitar as longas lambedelas e saltos, de alegria por nos ver.

Ele bem que se lembra, das nossas idas até ao rio, com ele para dar uns bons mergulhos no verão.

É um grande e verdadeiro amigo, com quem partilho muitas brincadeiras e com quem falo.

Dique, aí!

Estás a ouvir!

Quieto!

Ele obedecia-me, porque já sabia, que era sempre recompensado por isso.

Lá tinha um biscoito.

O Rodrigo, não passava sem lhe fazer uma festa e claro, em troca lá vai uma lambedela.

Pousava as patas dianteiras por sobre os nossos ombros, como se de um abraço se tratasse.

O meu cão, faz parte da nossa família e porque não dizer, da nossa vida.

Era mais um agregado familiar, lá em casa.

Finalmente já na cozinha, preparamos o nosso lanche.

Ainda haviam vestígios de sobras de iguarias do Natal.

O que claro está, nos agradava imenso.

Depois de termos aconchegado o estômago, fomos tratar dos animais, que reclamavam, lembrando-nos que estava na hora do repasto.

Dirigi-me ao galinheiro, enquanto o Ródri, foi tratar dos coelhos.

Depois tinha a tarefa mais complicada, os perus.

Raios de animais parvos e maus.

Tinha de lhes dar comida, sempre prevenido com um pau na mão esquerda, para qualquer investida.

Lembro uma vez, tive de recorrer a violência e desferi uma paulada certeira na cabeça do peru, que o deixei em nocaute durante uns minutos.

No momento fiquei preocupado, pensei que o tinha morto.

Ia ser tarefa complicada, de dizer aos meus Pais.

Mas se tivesse de ser, lá tinha que assumir as consequências do meu ato.

O que é certo ele não morreu e ainda durou mais uns tempos, até o meu Pai lhe dar o merecido prémio, o forno.

Bom, sempre vos digo que me deu grande prazer espetar-lhe o dente.

Era a minha vez de me vingar, dos ataques que por vezes eu era vítima.

Concluída a tarefa, eis de regresso.

O Rodrigo, começou a olhar incessantemente para o relógio ficando nervoso, já que tinha de estar em casa, antes da chegada do Pai.

 

Diogo, desculpa, mas sabes que por mim, ficava aqui mais tempo, ou até para sempre, mas tenho de ir embora, para não haver problemas.

Mesmo assim vamos ver como ele vai chegar.

Estou cansado desta vivência, de discussões e acreções lá em casa.

Um destes dias, se a minha mãe não fizer queixa a polícia, sou eu que o faço.

Aquilo é um monstro, bêbado intratável.

Ele é meu Pai, pena é que o seja só de nome.

Ser Pai, é ser como é o Padrinho.

Tens muita sorte, e mereces ter um Pai assim Diogo.

Digo sorte, porque não somos nós que escolhemos os nossos Pais.

Logo, não devíamos nascer para sofrer desta forma.

Um dia, que seja Pai, vou dar tudo que eu nunca tive aos meus filhos.

Eles não pedem para nascer, logo eu só tenho de dar o meu melhor a eles.

Estou-te a dizer isto ati Diogo, porque és o meu melhor amigo.

Aliás, és um irmão.

Tens feito tudo por mim.

 

Acrescentou já com a voz trémula.

 

Nunca te vais arrepender disso, podes ter a certeza.

 

Rodrigo, não faço mais que a minha obrigação como teu amigo.

Sinto-me realizado em dar aos outros, preenche-me o coração.

Fico feliz, ao ver que o meu contributo, minimiza o sofrimento de alguém que é meu amigo.

Selamos aquele momento, com um forte e sentido aperto de mão, como que perpetuasse a nossa já longa e pura amizade.

 

Até a manhã Diogo, e obrigado pela companhia, e pelo lanche.

A, e obrigado por seres meu amigo.

 

Vá, deixa-te lá disso Ródri.

A minha casa, tem as portas abertas para os meus amigos.

Olha, já vais?

Não falta nada?

 

Não!

O quê?

 

Meti a mão ao bolso e tirei uma chicla gorila.

Toma.

 

Obrigado Diogo!

Quero que saibas, que a minha amizade por ti, não é interesseira, peço-te, para não me dares nada.

Continuarás a ser o meu Irmão.

Mais uma vez obrigado Diogo.

 

Dirigiu-se para o portão acompanhado pelo dique a quem deu uma bolacha que tinha guardado do lanche.

 

Vá, toma lindo.

 

O Dique retribui-lhe com uma lambedela, agradecendo-lhe o gesto.

 

Tchau Diogo.

 

Tchau Rodri.

O seu paço, era retraído, notava-se a ausência de vontade de ir para casa, pelas razões que bem conhecemos.

Eu, ficava triste, por estar sozinho, Embora os meus Pais, estivessem para chegar, mas acima de tudo, pelo sofrimento do Rodrigo.

Ele não merecia. Aliás, ninguém merece sofrer.

Chegado a esquina da rua, olhava sempre para traz para me dizer adeus acenando com a mão.

Eu retribuía o gesto.

Já era um ritual nosso.

Amanhã por certo, havia-mos de voltar a estar juntos, para mais um dia de brincadeira, e mais uma aula da escola da vida, onde o tempo é o mestre, e nós meros aprendizes.

 

 

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