quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CARTA SEM ROSTO



Olá, estou-te a escrever estas linhas, que se perdem na imensidão, de histórias que fomos cúmplices.
Lembras-te das nossas brincadeiras inocentes, com um fim sempre imprevisível?
Era o desbravar de um caminho, carregado de interrogações, que nos havia de levar à encruzilhada da vida.
Os teus cabelos de vento, olhos de mar, sorriso de sol, faziam o rascunho mais que perfeito, da sebenta, que ainda hoje transporto no peito.
O fascínio dos segredos que balbuciamos ao ouvido indiscreto do mundo.
Lembras-te?
Sim, eu sei que já faz tempo, mas são as tuas impressões digitais que permanecem bem vivas.
Se eu pudesse subtrair alguns anos!
Mas o que de mais significativo acontece na nossa vida, só tem encanto uma vez.
O tempo é tão escaço, sobra-nos as memórias!
Sabes, ainda guardo os bilhetes que trocávamos, numa escrita de riscos e sarrabiscos, que facilmente descodificávamos.
Tu gostavas que eu desenhásse com o meu olhar, as palavras, como se de um filme mudo se tratasse.
Tudo é tão fácil quando absorvemos o ADN da amizade.
Os verdes anos de uma aguarela, pintada com as cores da simplicidade e inocência, fazia desta etapa o patamar onde gostávamos que os dias se multiplicassem, e as palavras se fundissem, num vocabulário ainda escaço, e envolto numa timidez, de mostrar os sentimentos muito baralhados, e indefinidos, mas belos.
Começavam os preparativos, para o banquete de desafios para os quais não fomos convidados.
De forma implacável, lançaram-nos para a mesa do mundo.
Sobre ela, uma longa toalha de injustiça, bordada pelas mãos da hipocrisia, presidida pelo tempo.
Personagem de semblante carregado, o seu rosto encortiçado estava vincado pelas rugas da história, cabelos brancos de sabedoria, olhar distante, mãos a transbordar de mundo.
As cadeiras eram feitas de ambição, ostentando a vontade exacerbada de vitória.
O faqueiro, afiado, cintilava de covardia e falsidade.
As travessas de ingratidão, contrastavam com os pratos de egoísmo.
As taças de cristal resplandecente da ganância, deixavam-nos na boca um trago amargo de revolta.
Limpávamos a boca ao guardanapo da mentira.
Foi então que se fez ouvir a voz cáustica e firme do tempo.
Todos que estão há minha mesa serão escravos e prisioneiros dos vossos atos.
A mim só me cabe o papel de observador atento do vosso percurso.
Sou o vosso juiz.
Todos nascem libres, depois cada um escolhe as algemas que o irão aprisionar a vida.
Não esqueçam, o perdão e o arrependimento, são o bálsamo que serve de analgésico, para me curar as feridas.
Sirvo-vos a esta mesa o que de pior a vida tem.
Mas sabem porque o faço?
Porque é perante as adversidades das forças negativas é que adquirem as defesas que vos vão tornar imunes, aos sentimentos e as atitudes ignóbeis.
A chave para um percurso de vida íntegra, reside no caracter e na personalidade que cada um cultiva!



DIOGO_MAR

6 comentários:

  1. Uma carta, uma história de amor que toca as nossas emoções, mas muito bem escrito com frases lindas, poéticas..... Parabéns amigo pela forma como escreve!....

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    1. Muito obrigado, por se juntar a leitura desta carta!

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  2. Belíssima reflexão epistolar!
    Como vem sendo hábito, Diogo, está muito bom...

    Abração ;)

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    1. Obrigado Daniel, pelo teu olhar sempre muito atento.
      ABRAÇAÇO

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  3. São cartas como esta que nos ajudam a reflectir sobre as atitudes a tomar com vista a tornarmo-nos pessoas íntegras, honestas e cumpridoras dos valores que devem orientar as nossas vidas.
    Muito boa reflexão. Parabéns.
    Beijinhos

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    1. Obrigado Mariazita.
      Fico feliz pela sua vinda, à minha humilde casa!

      JINHOS

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