sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

UM NATAL MAIS QUE PERFEITO HISTÓRIA_9



Lembro aquele natal inesquecível, foi o mais terno e feliz, que a minha família podia ter.

O processo de guarda do Rodrigo, requerido pelos meus Pais e Padrinhos, junto do tribunal, ficando com a sua custódia, finalmente teve o seu epílogo.

Os meus Pais, em conjunto com o nosso advogado, interpuseram recurso, devidamente fundamentado, de forma categórica e inequívoca, rebatendo a primeira tomada de decisão, que não nos tinha sido favorável.

Reuníamos todas as condições, socioeconómicas, para ficar-mos com o Rodrigo.

Além disso, era-mos uma família solidamente estruturada.

O meu Pai, sabia muito bem esgrimir os seus direitos de Padrinho, e não se deixava vencer facilmente.

Tudo se resume, a uma questão de carater e personalidade, da qual sou orgulhosamente herdeiro.

Era determinado na luta e defesa das causas.

Esta, era do afilhado, de quem tanto gosta.

A prepotência ditatorial do homem, e das leis, não podem padecer de tão profunda e cruel cegueira.

 

Acredita em nós Diogo.

 

Estas palavras e a forte convicção dos meus Pais, deixavam-me tranquilo.

Eu não tecia comentários, sobre o assunto ao Rodrigo, para não lhe elevar, os índices de ansiedade, tinha receio, que cometesse algum ato irrefletido.

Dado adquirido, ninguém da aldeia e da escola, aceitavam que ele fosse para uma instituição, a começar pelo Rodrigo.

Eu era muito contido no que concerne a esta matéria.

Seguia as instruções, que os meus Pais me tinham dado.

Não lhe devia alimentar, falsas espectativas.

Dizia-lhe sempre para ter esperança.

Ele andava muito revoltado, pelo empasse em que estava a decisão, do recurso entreposto.

Mas depositava nos meus Pais, toda a confiança, e desabafava dizendo.

 

Diogo, só os Padrinhos me podem salvar.

 

Eu todas as noites, rezava para que tudo corresse a nosso contento.

Fiz uma promessa à Santa Rita, dar-lhe nove velas, tantas como a idade do Rodrigo.

Pedia-lhe, para nos ajudar a ganhar esta questão, e dessa forma dar-me, o irmão que eu tanto queria.

A minha Mãe, depois da gravidez de alto risco, a quando da minha gestação, ficou impossibilitada de ter mais filhos.

Um de nós esteve a morrer, mas felizmente estamos cá os dois, e muito felizes.

Tenho a melhor Mãe do mundo, e eu tudo faço para ser um bom filho.

Ao fim de uma luta titânica, por parte dos meus Pais, fazendo valer o grau de parentesco de Padrinhos, tudo chegou a bom porto.

Foi um processo que esbarrou em vários obstáculos, já que o tribunal, mostrava-se intransigente, em abdicar da decisão de institucionalizar o Rodrigo.

Todos sofremos muito com esse fantasma a pairar sobre as nossas cabeças.

Era uma guilhotina, que a qualquer momento podia decepar a vida do Rodrigo, ferindo de morte, no seu amor-próprio, e a nossa, pelo amor que todos lhe temos.

A frieza e por vezes indiferença, que as mais altas instâncias, abordam e tratam, estes processos, são execráveis.

Eu sempre acreditei, na capacidade e eficiência do meu Pai, e do advogado a conduzir este assunto, tão melindroso.

Por vezes via-o de semblante carregado, quando lhe preguntava como ia o processo.

Ele era lacónico na resposta, outras vezes algo evasivo, Evitando o meu sofrimento.

Estava ciente da importância que eu dava a adoção do Rodrigo.

O meus Pais sempre me diziam.

 

Diogo, mantém a calma, tudo está a ser feito com o intuito de trazer para nossa casa definitivamente o Rodrigo.

Temos de dar tempo, ao tempo.

Saber esperar é uma virtude, e devemos saber lidar com isso.

Escuta bem filho.

Faz disto um lema de vida.

Contra a teimosia, nada melhor que a persistência.

 

Estávamos pela primeira semana de dezembro quando chegou a resposta pela boca do advogado.

Deslocou-se a nossa casa, reunimos na sala.

Aquele hiato de tempo, de abrir a pasta, pegar nas folhas, foram minutos transformados em horas.

Os meus Pais, transpareciam uma calma aparente, eu estava mais tenso.

 

Diogo, o Rodrigo é teu irmão.

Ganhamos o recurso.

Foi dado o veredito final.

 

Eu não cabia em mim de felicidade.

O sonho de ter um irmão, realizava-se.

Saltei do sofá, gritando.

Ganhamos ganhamos ganhamos.

Abracei os meus Pais a chorar de alegria.

Com tanta emoção, só sabia agradecer-lhes.

Vi lágrimas nos olhos dos meus Pais.

O semblante do advogado, transparecia felicidade, pelo dever cumprido.

Terminava ali, o caminho tormentoso do Rodrigo, e Os maus tratos, que o Pai, lhe infligia, e o calvário deixado, pelo abandono da Mãe.

Agora juntos, Íamos desbravar novos horizontes, para um traçado de vida em comum.

Partilhar os mesmos Pais, a mesma casa, a mesma mesa e as mesmas brincadeiras.

Deixei que fossem os meus Pais a darem a notícia ao Rodrigo.

Foi no almoço de sábado em minha casa, que lhe foi transmitido, tão ansioso desfeche.

Os olhos tinham um azul cintilante, sedentos por saber qual o destino que o esperava.

Estava de rosto algo fechado, vi-lhe muito medo, daquele momento.

Foi então que o meu Pai, disse.

 

Rodrigo, este natal vai ser diferente.

 

Aquela pausa, parecia infindável.

 

Como assim Padrinho?

 

Esta casa é tua, o Diogo é teu irmão, nós os teus Pais.

 

Caiu no choro convulsivo, abraçado a mim, dizia: finalmente somos irmãos!

Não cabia nele, de tanta euforia.

 

Somos irmãos Diogo!

Deus existe!

A Santa Rita também!

 

Abraçou o meu Pai dando-lhe um beijo, obrigado Padrinho, és um herói.

 

Rodrigo, não há heróis, há sim, garra e determinação, de lutar pelos nossos objetivos.

 

Acabou no colo da minha Mãe, momento carregado de enorme singularidade, e afeto.

Já não se lembrava, de ser acolhido, pelo único e melhor regaço do mundo, o de Mãe.

 

Adoro-te Mãe.

Agora não vos trato por Padrinhos, mas sim por meus Pais.

Tudo vou fazer, para vos retribuir e agradecer, todo o empenho na defesa desta minha causa.

Saberei estar a altura, da aposta que fizeram, e do investimento que vão fazer em mim.

Obrigado Pai, Mãe e mano, aquece-me o coração, poder prenunciar estes nomes.

 

Rodrigo, vamos-te ministrar os mesmos padrões educacionais do Diogo.

A partir de hoje, tens os mesmos direitos e obrigações do teu irmão.

 

Sim Pai, é justo que assim seja.

 

A minha Mãe afagava-lhe o rosto, e cobria-o de beijos, da forma carinhosa que eu bem conhecia.

Fui inundado por uma inusitada felicidade.

 

Bom, meninos, sabem qual vão ser as vossas tarefas para esta tarde?

 

O quê Pai?

 

Preparar o quarto do Rodrigo, e depois uma surpresa.

 

Qual?

Preguntamos em uníssono.

 

Vamos todos fazer a nossa árvore de natal, este ano ela reveste-se de um significado, redobrado e especial.

 

Boa, o pinheiro de natal vai-se chamar Rodrigo!

 

Não Diogo, vamos é deitá-lo no presépio!

 

Gracejou o meu Pai.

Soltamos em coro, uma sonora gargalhada.

Respirava-se um ar pleno de felicidade.

 

Agora meninos, acabou o secretismo relacionado com o processo do Rodrigo.

Quanto aos trâmites que faltam, nos próximos dias tudo ficará concluído.

Já podem dizer na aldeia, e na escola que ele está definitivamente em nossa casa, e que faz parte integrante da nossa família.

Assim se faz o natal!!!

 

 

DIOGO_MAR

5 comentários:

  1. Uma verdadeira história de Natal!

    Abraço também por isso...

    ResponderEliminar
  2. Gostei muito de ler este relato pleno de humanismo e, nesta época, a simbolizar um Menino que chega como salvador...
    Contudo, o que quero relevar, é o significado desta luta. Até pode ser fictício, o relato. No entanto, ele retrata uma situação que me toca profundamente, visto ter acompanhado casos idênticos aquando do exercício de funções na CPCJ da minha cidade, além de já ter sido juíza social.
    Bjo, Diogo :)

    ResponderEliminar
  3. Esqueci, parabéns pela escolha musical... :)

    ResponderEliminar
  4. Uma história linda e até emocionante que faz um verdadeiro Natal, Parabéns !!!

    ResponderEliminar